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26
Jan21

Vidas! (2)

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Continuação     (2)

Francisco tinha cumprido o Serviço Militar, estivera na fronteira do Alentejo, aquando da guerra civil de Espanha. Num dos exercícios, enganaram-se nas coordenadas, quando dispararam o canhão racharam uma oliveira centenária, que o Exército teve de pagar. Tinha comprado, em Évora, um livro de história, para ler nos tempos livres

 Como impedido, dum Capitão, tinha estado em Mafra, enquanto o oficial frequentou um curso de metralhadoras pesadas

Costumava dizer: “que na tropa, nem bom cavalo, nem bom cavaleiro”

Quando saiu da tropa, foi para São Miguel do Pinheiro, para aprender o ofício de ferreiro e ferrador. Sonhava com a possibilidade de abrir uma oficina de ferreiro e ferrador

Era o homem dos sete ofícios. Sabia fazer todos os trabalhos do campo: lavrar, semear, tirar a cortiça, limpar as árvores, para além de fazer cestos e cadeiras

Trabalhou na construção do aeroporto de Faro, e em estradas. Era um especialista a dinamítar as rochas, por isso era muito requisitado para trabalhar  na construção de estradas

Queria, acima de tudo, quando se casasse, um trabalho, que lhe permitisse estar por perto da mulher e dos filhos

 

Quatro anos depois do nascimento do José, Alice teve o segundo filho

Enquanto o bebé dormia, aproveitava para adiantar o trabalho fora de casa

Numa tarde, aproveitou para ir mondar, atrás da casa, pediu ao José para quando o irmão acordasse, que a chamasse

Mas, em vez de a chamar, começou a embala-lo para que se calasse, quanto mais ele chorava, mais ele baloiçava o berço, até que o virou por cima do irmão

Muito atrapalhado, foi chamar a mãe. Felizmente, como tinha muita roupa, o bebé não sofreu nada, a não ser o susto de ter ficado debaixo daquilo tudo

No intervalo das aulas, juntava-se com os alunos, querendo entrar nas brincadeiras deles. Uma vez, andaram com ele à roda até cair de tonto

De outra vez estava à porta do prédio, quando viu, um homem mascarado com cortiça queimada e uns grandes dentes de cana, ao fundo da rua, a caminhar na sua direção, fez-lhe sinal para não dizer nada. Quando o mascarado entrou na sala de aula, que tinha a porta aberta, José entrou a atrás dele, e viu alunos e alunas a saltarem para cima das carteiras

A professora tirou-lhe a primeira fotografia, já devia ter dois ou três anos

Viviam com muitas dificuldades, só tinham o que conseguiam arrancar da terra. Uma terra muito pobre, nas fraldas da serra do Caldeirão

Uma terra ótima para o montado de sobreiros, onde é tirada a melhor cortiça do mundo

Tirada, no mínimo, de 9 em 9 anos, são precisos muitos sobreiros, para conseguir uma boa renumeração

 Cada vez com mais dificuldades, desesperados, resolveram ir para o Concelho de Mértola, onde o pai do Francisco tinha umas casas, duas cercas, uma horta e uma courela 

 Mas, a miséria e a fome continuaram na mesma ou ainda pior. Os filhos andaram descalços até irem para a Escola, num clima, com grandes amplitudes térmicas

as solas dos pés eram tão grossas como as solas das botas, tendo de se adaptarem à geada do rigoroso inverno frio e ao calor demasiado do verão

Francisco não desistia do seu sonho. Como a casa tinha uma porta grande para a via pública, decidiu abrir a oficina de ferreiro e ferrador

Comprou um fole de ferreiro, uma bigorna, tenazes para segurar o ferro em brasa, enquanto moldava as ferraduras, carvão de pedra ……..

Mas a clientela era pouca, de longe-em-longe, uma besta para ferrar, uma ponta de charrua par afiar

Acabou por ter de fechar a oficina, não ganhou para o pagamento do equipamento

 Um ano, em fevereiro, desesperado, sem trabalho, despois do almoço, agarrou numa saca e uma manta velha, despediu-se e foi à procura de trabalho

 Alice ficou com os filhos pendurados às saias a pedirem de comer, só tinha couves, que era o que havia na horta, e que comiam todos os dias

O filho mais velho farto das couves, foi muitas noites para a cama, sem comer, dizendo que não tinha fome, porque não queria magoar a mãe

Ela sabia que ele já não queria ou não conseguia comer todos os dias, às duas refeições, couves. Mas não dizia nada

De vez em quando pedia emprestado, um pão, às vizinhas. Quando cozesse pagava-os

Passava as noites a fiar linho, para ver se ganhava alguma coisa, mas era um dos trabalhos mais mal pagos

Às vezes, chamavam-na para ir mondar, às tardes, pagas a 4 escudos cada, mesmo assim, muito poucas

Naquela triste miséria, também a preocupava o facto de nunca mais ter sabido nada do marido

Nem se estava vivo, se tinha arranjado trabalho, como teria vivido até arranjar trabalho

Já tinham passado quase  dois meses, e, ele sem dar novas, nem notícias.

Continua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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