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cheia

cheia

16
Fev23

A sedutora

cheia

Lisboa! A sedutora

 

17

 Na Escola Académica, tinha um colega de carteira, que era um barra, o melhor aluno da turma, sabia escrever à máquina e trabalhava num escritório, o que fez com que ele quisesse comparar uma máquina de escrever, tinha o sonho de um dia, também, trabalhar num escritório

Num belo dia, estava sozinho na loja da rua dos Poiais de São Bento, entrou na loja o vendedor da “Régisconta”: vendia máquinas de escrever, calcular …., disse-lhe que o patrão não estava, mas que ele estava interessado numa máquina de escrever, depois de ver o catálogo, escolheu uma, que custava à volta de 4.000 escudos, e combinaram o dia da entrega

Assim que o patrão chegou, disse-lhe que tinha encomendado uma máquina de escrever e que precisava do dinheiro para a pagar

Um dia antes, do dia da entrega da máquina, o patrão pagou-lhe a dívida e ele comprou a tão desejada máquina de escrever, estava escrito nas estrelas que iria escrever muito

Lia o jornal Diário de Lisboa, onde o então, ainda, aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica, Eduardo Prado Coelho tinha uma rúbrica para onde se podiam enviar quadras

Aproveitou para datilografar umas quadras e enviou-as, para o jornal, mas nunca as viu publicadas, ainda teria de ler muitos livros, para alimentar o sonho de um dia saber escrever

O Eduardo, um ano mais velho que ele, organizou uma palestra, com uns oradores espanhóis, na Casa da Imprensa, perto do Largo de Camões, em Lisboa, num sábado, à tarde, onde juntou cerca de 600 pessoas, o espaço estava lotado. Estavam com receio que a Polícia Internacional  de Defesa do Estado (PIDE) interviesse, mas correu sem incidentes  

Aproximava-se a época dos exames, para se candidatar a exame, como aluno externo, tinha de apresentar o boletim de vacinas e o diploma da quarta classe

Escreveu para a Delegação Escolar de Mértola, onde tinha feito a quarta classe, enviou uma nota de 20 escudos, dentro da carta registada, como tinha feito para o Registo Civil de Almodôvar, aquando do pedido de uma certidão de nascimento, para tratar do Bilhete de Identidade, recebeu o troco em selos do Correio

Passaram uns dias, sem resposta, com receio que o diploma não chegasse a tempo, enviou nova carta, mas com acuso de recção, recebeu imediatamente uma resposta, dizendo que em breve lhe enviariam o diploma, e assim aconteceu

Assim que recebeu o diploma da quarta classe, foi-se inscrever para fazer o exame do primeiro ciclo, como aluno externo, no Liceu Passos Manuel

Sabia que era muito difícil ser aprovado, fazer dois anos num, depois de tantos anos de ter feito a quarta classe, mas mesmo assim tentou a sorte, os exames não passam de momentos de sorte ou azar, quantas vezes, alunos bem preparados, nos exames enervam-se e não fazem nada, para tudo é preciso um pouco de sorte, coisa que não teve ou não chegou, e reprovou na prova escrita.

 

 25/08/2007

A notícia saíu

Em pleno Verão

No mês das férias

As nuvens desfizeram-se em lágrimas

Por te perdermos

No Verão da idade

A morte não foi de férias

O Mundo tremeu

Não amanheceu

No Verão choveu

O encontro não aconteceu

O Sol toldou-se

As nossas Primaveras cruzaram-se

Quando organizaste uma sessão de esclarecimento

Na casa da Imprensa, junto ao largo de Camões

Escrevias no Diário de Lisboa

Onde nos convidaste

Para a perigosa reunião

Que teve uma grande adesão

A PIDE não entreviu

A tua missão seguiu

Lutar contra a ditadura

Tiveste uma brilhante carreira

A doença levou-te antes do tempo

Quando, no Jornal, o Público, ainda nos davas alento

De que fintarias o vento

Por os séculos fora, vai ficar o teu talento

Em cada livro teu, é ele que esta lá dentro.

 

Singela homenagem a Eduardo Prado Coelho

 

Continua

 

 

 

 

18
Fev21

Vidas (14)

cheia

Continuação (14)

Começou com o ordenado de setenta escudos mensais, cama e roupa lavada, foi aumentado vinte escudos de cada vez, atingindo os cento e noventa escudos

Em 1958, ainda se viam algumas carroças pelas ruas. Ao cimo da Rua da Imprensa Nacional, do lado direito de quem sobe, havia uma olaria, que mais tarde foi transformada numa loja de artigos de plástico

Foi um ano de eleições Presidenciais, em que o General Humberto Delgado terá ganho as eleições. Questionado sobre o que faria a Salazar, se ganhasse, deu uma resposta, que deve ter ditado a sentença da sua morte: “obviamente demito-o”. (em 1965, foi morto pela PIDE)

Em 1957 tinham começado as emissões regulares da televisão. Muito poucas pessoas tinham televisão, José e o patrão, de vez em quando, depois do jantar, iam ver a televisão, a um café na rua de São Marçalo. A patroa ia para o andar, os filhos deitar

Assistiram à apresentação, pelo saudoso Artur Agostinho, do novo concurso da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, as Apostas Mutuas Desportivas: o Totobola

José teve sorte com o local para onde foi trabalhar: a paróquia de São Mamede, o local onde começaram os Estudos Politécnicos, daí o nome de rua da Escola Politécnica, o Jardim Botânico, a Imprensa Nacional. E, onde viviam figuras ilustres, como o cineasta Leitão de Barros, que vivia na rua do Arco a São Mamede, o distinto cirurgião Dr. Celestino da Costa, que morava numa rua perpendicular à rua da Imprensa Nacional, um quarteirão abaixo do Lugar de Frutas e Hortaliças, em frente ao estabelecimento vivia o conde de Arrochela, que segundo o motorista, gostava de viver a noite Lisboeta

Ao colega de escola, um ano mais tarde, coube-lhe, em sorte, uma taberna, na Avenida Infante Dom Henrique

Alguns operários da Imprensa Nacional, que trabalhavam por turnos, quando acabavam o turno da noite, iam “ matar o bicho”, e, nas noites em que eram visitados pela PIDE, informavam o José de quantos tinham ido presos. Tristes tempos, em que não se podia abrir a boca!

As ruas de Lisboa, desde manhã cedo, eram inundadas de pregões: a mulher da fava-rica, as varinas, os ardinas, no tempo dos figos, a mulher que apregoava:” quem quer figos, quem quer almoçar”, o homem do ferro-velho, cujo pregão era: “ quem tem jornais, trapos ou garrafas para vender”

No primeiro andar, do prédio do estabelecimento, vivia uma idosa, sozinha. De manhã o ardina dava um género de nó, num jornal matutino e atirava-o para a varanda, à tarde o ardina passava, e ela devolvia-lhe o jornal. Certamente, no dia seguinte entregava-o como não tendo sido vendido, o que era verdade, só o tinha alugado durante o dia. O José nunca soube quanto é que ela pagava pelo aluguer. Naquele tempo, também se editavam vespertinos, e por vezes, mais que uma edição, se algum acontecimento o justificasse, o que faziam com que os ardinas não se cansassem de apregoar: última hora”

Todos aqueles criados e criadas ansiavam, por o dia em que tivessem um espaço seu, alguém que os acarinhasse. Viver vinte e quatro horas, trezentos e sessenta e cinco dias, nas casas dos patrões, cansava! Sem dias de férias, nem de descanso, apenas algumas horas, por semana ou de quinze em quinze dias, como acontecia a algumas criadas, ao domingo, das 15 às 19 horas, para namorarem

Por vezes, criados e cridas falavam dos seus problemas, como eram trados pelos patrões, limpando as lágrimas uns aos outros, confortando-se com palavras de esperança em dias melhores. Eles, na esperança de que, depois da tropa, conseguissem ir para a Polícia, Carris, Metropolitano. Elas, na esperança de que um príncipe encantado as libertasse

Algumas nunca casaram, e na velhice, quem lhes valia era a casa de Santa Zita, Santa, sua padroeira. Algumas vendiam postais, à porta das Igrejas, para ajudarem a organização

No quarteirão, do Lugar de Frutas e Hortaliças, havia um Colégio Feminino, onde andavam duas filhas de uma Senhora, que morava no Largo de Camões. A senhora começou a fazer as compras onde o José trabalhava, mas exigia grandes descontos. O patrão, de sebenta na mão, ia tomado nota do que Senhora queria e dos preços que exigia

Feitas as contas, como dizem no Alentejo, não dava a mexa para o sebo. Então, teve a genial ideia de equilibrar os descontos com um erro no total da soma. Não havia máquina registadora, era tudo somado à mão. Começou por acrescentar dois escudos e cinquenta, três ou cinco escudos, conforme os descontos que ela exigia. Estava combinado que, se descobrisse, se tratava dum erro na soma. Pagava depois de receber as mercadorias, nunca somou a conta!

Como era muita coisa, o cabaz ficava muito pesado, o patrão dizia-lhe para ir duas vezes. Mas ele não achava jeito ir duas vezes, da Rua da Imprensa Nacional ao Largo de Camões. Por isso, pedia para lhe colocar o cabaz no ombro e lá ia, descansava, colocando o cabaz em cima dos marcos do correio. A primeira paragem era no jardim do Príncipe Real, a seguir no jardim de São Predo de Alcântara, a última, na casa da freguesa, depois de subir dois lances de escada

O país estava em ebulição. Depois, do que aconteceu nas eleições presidenciais, a invasão do Estado Português da Índia, pela União Indiana. Nesses anos realizaram-se algumas procissões noturnas, da Igreja de São Mamede ao Convento do Carmo, acompanhadas por carrinhas da Legião Portuguesa, com altifalantes, cheias de Legionários 

A seguir à invasão, do Estado Português da Índia, organizaram uma procissão para evocarem Afonso Albuquerque, ao chegarem ao Convento do Carmo, gritaram: “ Levanta-te, grande Almirante Afonso Albuquerque”!  

Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 .    

 

 

 

 

 

19
Nov19

Até sempre!

cheia

Um triste, dia!

Partiste, quando o dia sorria

Soube-se, acabou-se a alegria

Enquanto a ditadura durou

A alegria nunca sonhou

Acabou-se a ditadura

A alegria voltou

A PIDE perseguiu-te

Tu resististe

Para França, partiste

Sem liberdade nada existe

A Revolução prometeu-nos a esperança

Mas, tu nunca baixaste a lança

Tinhas razão!

Acalmada a populaça

Voltaram à anterior dança

Vivem na abastança

Fazem-nos pagar com língua de palmo

Toda a desgovernação.

 

Até sempre

 

José Silva Costa

 

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