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cheia

cheia

28
Jan21

Vidas (4)

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Continuação   (4)  

 

José agarrou na arreata da burra e meteu-se ao caminho, nunca mais se lembrou do aviso do moleiro

Os seus pensamentos estavam embrenhados no que tinha lido na carta do pai. Perguntava a si mesmo quantos quilómetros seriam do seu Monte a Beja, quantos dias teria andado até lá chegar, tudo perguntas que teriam de esperar, e era preciso que tivesse coragem para as fazer

Quando deu por conta já o saco tinha caído. Como colocar o saco em cima da burra, se ela era mais alta que ele, e ainda tinha de elevar os quinze quilos!

Procurou uma rocha, onde colocou o saco, encostou a burra à rocha, pegou no saco para o pôr em cima dela, mas esta desviou-se: uma, duas, três vezes, só à quarta tentativa é que conseguiu colocar o saco em cima da burra. Estava exausto. Até chegar a casa, foi sempre com atenção, quando o saco ia mais para um lado, lá ia ele endireita-lo

A mãe estava preocupada com a demora. Mas assim que chegou explicou-lhe o que se tinha passado. Estava tão cansado que foi imediatamente para a cama

A mãe ainda peneirou a farinha nessa noite. Queria amassar bem cedo, já tinha ido pedir fermento a uma vizinha

No outro dia, quando chegou da Escola, já havia pão quente, o cheiro tinha perfumado a casa, parecia que tinha começado uma nova era

Alice estava grávida pela terceira vez. Tinha receio que o marido não viesse antes do parto. Desejava que fosse uma menina, para ajudar na lida da casa. Já tinha dito muitas vezes, ao José, que se fosse uma rapariga já a poderia ajudar. Assim, com dois rapazes, tinha de fazer a lida da casa sozinha

 

A Escola recebeu o equipamento escolar em Fevereiro ou março, transportado numa carroça da Camara Municipal de Mértola, com dois funcionários, puxada por um macho

Os funcionários descarregaram tudo e colocaram nos devidos lugares. No topo norte o estrado, com a cadeira e secretária da professora em cima, à esquerda do lugar da professora, na parede o quadro preto, por cima o cruxifixo e o quadro com a fotografia de Salazar, ao lado do grande quadro preto o mapa de Portugal, em cima da secretária um globo, junto do quadro uma caixa de giz e um apagador, no resto da sala colocaram as carteiras com os tinteiros brancos embutidos e as cadeiras. Foi um dia inesquecível!

A professora era um pouco austera. Quando estava a ensinar a fazer os números disse, ao José, que o nove era uma bolinha com um pauzinho do lado direito, mas ele colocava sempre o pauzinho do lado esquerdo, até que ela deu-lhe uma bofetada, e ele nunca mais colocou o pauzinho no lado esquerdo

O José era canhoto, mas o pai atalhou-lhe o braço esquerdo ao pescoço. A mãe só lhe contou quando ele já tinha 50 anos, depois de o ouvir tantas vezes dizer, por que razão não era capaz de fazer um risco direito, nem com a régua e o esquadro, quando lhe encostava o lápis, cada um ia para seu lado, não consegue fixar um caminho, nem que passe por lá cem vezes, ela não resistiu e contou-lhe o segredo

Todo o outono e inverno na escola, de manhã e de tarde, não tinha tempo para brincar com o irmão, como fazia dantes. Com seixos brancos imaginavam grandes rebanhos de ovelhas, onde não faltavam os carneiros, os cães, os borregos e o pastor

Nas manhãs frias de inverno, quando a superfície do ribeiro, que rodeava acourela, congelava, descalços, mal agasalhados retiravam, os dois, com muito cuidado, a maior superfície que conseguiam e colocavam-na ao sol, chamando-lhe: tirar espelhos  

Na margem do ribeiro havia uma laje, muito a pique e muito lisinha, utilizavam-na como escorrega. Mas para não estragarem as calças, arrancavam duas esteva e sentavam em cima delas, deslizavam pela laje abaixo, atingindo uma boa velocidade

 

O pai do José regressou, ainda antes de Maio, mas não tem registo de reencontro entre ele e a mãe, se calhar estava a dormir. De manhã quando acordou para ir para a Escola, o pai apertou-o contra ele e beijou-o. Não se esqueceu de perguntar como iam os estudos

A mãe, prestes a fazer 25 anos, no primeiro de maio, ainda que na cédula esteja escrito 12, como acontece com ele e o irmão, em que ele nasceu a 5 e está 15, já o irmão nasceu a 17 de Julho e está 10 de setembro, estava quase no fim da gravidez

Numa radiosa manhã de Maio, quando se preparava para ir para a Escola, a mãe disse-lhe que não podia ir, porque o pai já tinha saído para o trabalho, e ele e o irmão tinham de ir a casa da vizinha, dizer-lhe que viesse imediatamente, e que ficassem lá a brincar com a filha dela

Entretiveram-se na brincadeira, nem deram por o tempo passar, quando ela regressou e lhes disse: “ já podem ir para casa, já têm lá uma mana”, correram para casa.

   Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

19
Nov20

Os contabilistas

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Os contabilistas

O anti ciclone dos Açores está carregado de nuvens negras a anunciarem tempestade

Concordo que quem está a receber subsídio de desemprego ou de inserção preste serviço à comunidade

O que não podemos é deixar ninguém ao deus dará, porque nasceu pobre ou não consegue ganhar para o pão

Há quem tenha nascido rico, virado para a lua, a sonhar com carros, corridas e pistas

Mas, daí a pensar que somos todos calões, que não queremos trabalhar, é falta de sensibilidade

O que não pode acontecer é uns terem tudo e outros nada, pelo menos enquanto houver liberdade

Infelizmente, nasci quando um contabilista Governava o País, que só pensava em barras de ouro

Como nasci muito pobre, sei bem o que é passar fome

O que é ver uma mãe com 3 três filhos, pendurados às saias, a chorarem de fome

Os meus pais trabalhavam de noite e de dia, mas não conseguiam arrancar da terra, comida suficiente para alimentarem os filhos

O Baixo Alentejo era de meia dúzia de latifundiários, que viviam à grande e à francesa

Enquanto os que os enriqueciam viviam na miséria

Cheguei a ir às manjedouras, das muitas bestas, que eram utilizadas nos trabalhos do campo, procurar pequenos bocados de alfarroba, que faziam parte da sua ração

Fico muito preocupado quando oiço anunciar despedimentos, que vão causar muitos sofrimentos 

Os que nasceram com sorte não devem desprezar os que nunca a encontraram.

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

08
Jul20

O futuro!

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Que futuro!

No calor do Verão, cozes o pão

Tens a vida em suspensão

Sem saberes o que vai acontecer

Se a empresa vai ou não fechar

Ninguém sabe com o que contar

Esta pandemia veio-nos desafiar

E, tu continuas determinada

A aproveitá-la para uma nova caminhada

Não ficaste três meses confinada

Para que tudo fique na mesma: sem nada

A mesma tristeza, a mesma pobreza, a mesma incerteza

Queres aproveitar para o Mundo mudar

Dizes que alguém tem de começar, não podemos mais esperar!

Não queres mais correrias sem sentido, para um trabalho vazio

Queres fazer qualquer coisa que seja útil, em que te sintas realizada

No futuro, não queres continuar a fazer coisas que não servem para nada

Quando há tanta falta de coisas indispensáveis, para toda a gente

Queres correr atrás de um sonho!

Então, tens de o fazer agora, enquanto as pernas correm

Para o, poderes agarrar

Porque com os anos as pernas começam a pedir para descansar

E, os sonhos vão morrendo devagar.

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

15
Ago16

Oa anéispão

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Os Anéis

Os cinco anéis que representam o Mundo: Jogos Olímpicos

Há quem diga mal: desperdício de recursos humanos e materiais

Há o que aplaude: o Mundo num só local!

Nos do Rio 2016, mais de duzentas nações em competição

Num esforço sobre-humano, que só, a vã glória nos consegue obter

Que importa morrer ? Se, “por feitos valorosos se vão da lei da morte libertando” (Camões, nos Lusíadas)

Uma festa Mundial, como uma familiar é sempre de aplaudir

Tudo bem, quando seja para nos unir

Ainda, que o Mundo pareça estar a ruir

Tanta dor, tanta morte, tanta vingança, tanto ódio, tanta guerra!

Se o mundo é tão bonito e acolhedor, quando há paz e pão, na Terra.

 

 

José Silva Costa

 

 

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