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24
Jul25

O Império

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O Império -  As teias que o Império teceu. 

123

O Governador continuava descontente e preocupado por não conseguir arranjar dinheiro, para enviar para a Coroa, como se tinha comprometido com o Rei

Em Lisboa havia a convicção de que Angola era muito rica, devido ao negócio da escravatura. Mas, essa fonte de receita tinha acabado ou em vias de extinção, porque a escravatura já tinha sido abolida

Mesmo sendo de melhor qualidade que os dos Brasil, não era alternativa à escravatura, porque os do Brasil tinham inundado a Europa, fazendo com que a exploração de diamantes não fosse rentável

A Zulmira bem o queria ajudar, para ver se encontravam, entre os muitos minerais, que existem em Angola, algum que fosse muito rentável e de fácil exploração. Mas, de tudo o que diziam existir, não encontraram nada que os ajudasse a sair da difícil situação do incumprimento perante o Rei

Receavam que, mais tarde ou mais cedo, o Rei nomeasse um novo Governador, para substituir o Miguel, ainda que dissesse que isso não era o mais importante, porque o que o preocupava era não ter sido capaz de realizar o que se tinha proposto fazer

Nunca uma assembleia geral da cooperativa tinha tido tanta afluência, pela primeira vez, os jovens estavam em maioria

Alguns sócios, mais velhos, estavam admirados com tanta participação na eleição para a presidência da cooperativa, e ainda, por cima, eram jovens

Havia duas candidaturas: a Filó, responsável pela secção da produção, e o Zica, um dos primeiros alunos do Roberto, que ganhou o gosto pela agricultura, depois das aulas dadas nas lavras, ao ponto de deixar a turma e dedicar-se só à agricultura

Todos os dias ia para as lavras, falava com as muitas mulheres, que se dedicavam a tirar da terra o sustento da família. Ajudava-as, pedia-lhes que o ensinassem, porque também queria  fazer uma lavra, para ajudar a alimentar a mãe, que já não ia para as lavras, devido à idade e à doença

Diziam que ele era um filho exemplar, era o primeiro rapaz a querer ter uma lavra, e isso fazia com que fosse, para umas um exemplo, mas, para outras era um intruso nos trabalhos das mulheres, deixando-as sem saberem o que dizer.

Continua

 

 

 

 

 

12
Jun25

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

117

O Governador ficou com a pulga de trás da orelha, talvez os diamantes fossem a tábua de salvação, para o progresso de Angola, ajudando-o a cumprir a missão de aumentar os rendimentos da Coroa Portuguesa

Já tinha ouvido falar do sucesso da exploração de diamantes, na colónia do Brasil, onde foram descobertos, por volta de 1730, no vale do Rio Jequitinhonha, em Minas Gerais

A região do Arraial do Tijuco tornou-se tão rica, que os seus habitantes, graças ao trabalho dos escravos, viviam num luxo, que ombreava com o das cidades mais ricas da Europa

Alguns escravos conseguiam que os ” Senhores” lhes dessem carta de alforria, umas vezes comprada, outras por lhes serem fiéis e honestos

Assim que conseguiam a liberdade, tentavam comprar um escravo, para viverem do trabalho dele

O Miguel disse à esposa que iria tentar saber se os diamantes, no Rio Quanza, seriam em quantidade suficiente, para pedir ao Rei, que autorizasse a sua exploração

Constava que os diamantes de África eram melhores e mais apreciados do que os do Brasil, o que poderia ser uma vantagem

Como não era fácil a deslocação à região dos diamantes, pediu que lhe trouxessem umas amostras, para ver se valia a pena incomodar o Rei, com o pedido da exploração

Quando lhe trouxeram cinco lindos diamantes, ele e a Zulmira ficaram encantados com tão grandes e lindas pedras, imediatamente disse para a esposa, que os iria enviar ao Rei, assim que tivesse portador

Enquanto não houvesse autorização, para a exploração de um produto de adorno, que a qualquer momento poderia passar de moda, o melhor seria continuarem a apostar na agricultura, que é uma produção, que é essencial à vida, sendo que à medida que as sociedades vão evoluindo, tornam-se mais exigentes, consumindo uma maior variedade de produtos e preferindo os que são cultivados mais de acordo com a Natureza

O Governador não se cansava de elogiar todos os que queriam tornar a agricultura mais produtiva, com mais variedades de produtos e melhores produtos

Para reforçar o seu empenho, na agricultura, decidiu doar à cooperativa, as sementes, que tinha trazido da Metrópole, para que fosse experimentada a sua produção, em Angola. Tratava-se das seguintes: trigo, centeio, cevada, feijão, ervilhas, tomate e grão-de-bico.  

Continua

 

 

30
Jan25

O Império

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O Império  -  As teias que o Império Teceu

98

O sono venceu-os, os pais tiveram de os ir deitar, a Milene, filha da Leopoldina e do Jeremias, acabou por pernoitar no palácio

As três crianças, bem como os familiares e os que desembarcaram, em Luanda, tinham enfrentado um dia longuíssimo, não admira que todos estivessem muito cansados, as crianças foram as primeiras a adormecer

Os adultos continuavam na euforia de conseguirem resumir cinco anos em uma noite. Mas, também, eles acabaram por ter de ir dormir, com a promessa de continuarem no dia seguinte

A Rosinha, devido à sua avançada idade e debilidade, dormiu, pela primeira vez, no palácio do compadre, perto da neta e do neto, acontecimento, que tanto tinha esperado, para que acontecesse

Já o dia lavava os olhos, quando decidiram ir dormir, o Manuel, Governador de Angola, convidou todos, para o almoço, porque tinham de continuar a dissecar o que se tinha passado, naqueles cinco anos, em África e na Europa

Como se deitaram muito tarde, já a lua se tinha ido embora, pediram que o almoço não fosse muito cedo, o anfitrião desejou-lhes boa noite, quando o sol já tudo iluminava, acrescentando que dormissem bem, que a hora do almoço seria atrasada, para que todos descansassem da dura jornada

O Afonso e as primas é que não conseguiram dormir tudo, tinham de continuar a fazer o que o sono tinha interrompido

Assim que acordaram, não fossem os criados tê-los obrigado a tomarem o pequeno-almoço, nem teriam sentido a sua falta, tal era a vontade de saberem tudo, uns dos outros, para ensinarem uns aos outros tudo o que sabiam

O almoço prolongou-se por várias horas, nunca o palácio tinha visto tanta alegria, tanta troca de ideias, sobre os dois continentes

Antes de cada um ir para seu lado, o Governador propôs que fizessem uma grande festa, para comemorarem o regresso da Marina, do marido e do filho, mas esta disse que não queria festa, pediu que com o dinheiro, que se gastaria, fosse criado um posto médico

O pai disse que concordava, que teria todo o seu apoio para arranjar um local onde pudesse ajudar a população, com os conhecimentos, que tinha adquirido na Universidade de Coimbra.

Continua

 

23
Jan25

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

97

Chegara a hora de atracar a nau do comandante da armada, era preciso agir rapidamente, porque as horas de sol eram poucas

Enquanto estiveram ao largo, a Marina e o Roberto explicaram ao filho que a linda cidade, que viam, era Luanda, a sua cidade, onde contavam encontra  a avó Rosinha, o avô Manuel, governador da colónia de Angola, e muitos outros familiares: uma tia avó e um tio avô, muitos tios, tias e as primas Milay e Milene

O areal estava semeado de gente, todos queriam ser os primeiros a ver quem vinha para Angola e quem regressava à sua terra

A Rosinha, o compadre e restante família estavam junto à escada, que ligava o cais à nau, o primeiro a sair foi o comandante da armada, a quem o governador deu as boas-vindas, o comandante agradeceu-lhe a calorosa receção e disse que lhe entregava a filha, o genro e o bonito neto sãos e salvos, a seguir a Marina abraçou e beijou o pai, que a seguir abraçou o genro, pegou ao colo o Afonso, não parava de o beijar e abraçar, parecia querer recuperar todo o tempo em que não o pôde ver

Mal o avô o libertou, a avó olhou-o de alto abaixo, prendeu-o nos seus magros e longos braços, beijou-o, disse-lhe que era muito bonito, que estava muito feliz por o conhecer

Não havia tempo, para mais cumprimentos, o sol, em breve, imediatamente desapareceria, o Governador, acompanhado do Comandante da Armada, pediu, que os seguissem, que se dirigissem, todos, para o palácio, onde poderiam continuar a falar, da longa separação, do que uns e outros, dos dois continentes tinham para contar, de todas as novidades dos  cinco anos

O Afonso estava atónito com tantos beijos e abraços, quando chegou ao palácio, à casa do avô, foram as tias, os tios e as primas, ( a Milene, mais velha que ele e a Milay, a mais nova dos três)  a abraçarem-no e a beijá-lo

Quando se viu livre de tantos beijos e abraços, foi brincar com as primas, a Milay, que vivia no palácio com os pais e o avô, foi mostrar-lho e tentar adivinhar onde é que ele iria dormir

Enquanto os adultos continuavam a falar sobre os cinco anos de ausência, da Marina e do Roberto, na Europa, querendo saber como era a Metrópole, como eram Lisboa e Coimbra, as duas cidades, que eles conheciam, havia muita curiosidade para saber quais eram as grandes diferenças entre a África e a Europa. O Afonso e as primas, cansados de tanta euforia, já faziam planos, para o dia seguinte, porque a noite já ia longa e o sono apertava

 

Continua

 

05
Dez24

O Império

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O Império  -   as teias que o Império teceu

90

Chegou o dia das despedidas

Já se sabia que seriam momentos muito tristes, os adultos sabiam que dificilmente se voltariam a ver, atendendo à idade da Anastácia e do Elisiário,   o jovem casal também não contava voltar à Metrópole, só o Afonso acreditava que a Anastácia e o Elisiário os iriam visitar, a Luanda

Por isso, a despedida não foi tão dolorosa para o pequeno Afonso, que, mesmo assim, se mostrou muito preocupado por a Anastácia e o Elisiário ficarem sozinhos

Foram muitos dias de coche, até conseguirem chegar à capital, pernoitavam em estalagens, que proporcionavam alimentação e descanso a humanos e animais

Uma aventura tão ou maior que ir de Lisboa a Luanda. Foi o melhor meio de transporte, que arranjaram, graças à amabilidade do Conde, que tudo fez para tornar a viagem menos cansativa, estava muito preocupado com o pequeno Afonso, até parecia que era seu neto, fez mais paragens que costumava fazer, escolheu as melhores estalagens

Chegados a Lisboa, indicou-lhes uma boa pensão, para ficarem os muitos meses, que faltavam para que as naus se fizessem ao mar em direção à Índia

A Marina e o Roberto disseram-lhe que não sabiam como lhe agradecer todo o empenho e carinho com que os tinha mimado. Respondeu-lhes que estava muito feliz por os ter ajudado, desejou-lhes muitas felicidades, que fizessem boa viagem e que encontrassem os familiares com saúde

Não perderam tempo, no dia seguinte foram tratar da viagem, o Conde já lhes tinha dito que, normalmente, as naus só se faziam ao mar no mês de abril, devido aos ventos e às correntes

Mas, eles queriam marcar a viagem, queriam saber quando se previa a saída das naus, quando previam a chegada a Luanda, foi-lhes dito que tencionavam largar em abril, quanto à cheada a Lunda, tudo dependia dos ventos e das correntes marítimas, a única certeza é que lhes garantiam a viagem

Ficaram mais descansados, garantiram-lhes que os levavam de regresso a casa, mesmo que não soubessem quando, e não regressavam sozinhos, levavam o Afonso, para mostrarem a toda a gente que tinham um filho lindo, nascido na Europa, em Coimbra, cidade dos estudantes.

“Com D. Maria I, a partir de 1780, é possível observar um conjunto de acções e obras, como a construção de pontes, a realização de projectos para a estrada de Lisboa a Coimbra (que só viria a ficar pronta 18 anos depois) “ ( da net)  

Continua.

 

25
Jul24

O Império

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O Império  - As teias que o Império teceu

71

 

Timor

O primeiro contato europeu com a ilha foi feito pelos portugueses, quando estes lá chegaram em 1512, em busca do sândalo. Durante quatro séculos, os portugueses apenas utilizaram o território timorense para fins comerciais, explorando os recursos naturais da ilha. Díli, a capital do Timor Português, apenas nos anos 60 começou a dispor de luz elétrica, e na década seguinte, de água, esgotos, escolas e hospitais. O resto do país, principalmente em zonas rurais, continuava atrasado.

Até agosto de 1975, Portugal liderou o processo de autodeterminação de Timor-Leste, promovendo a formação de partidos políticos, tendo em vista a independência do território. Quando as forças pró-indonésias atacaram as forças portuguesas no território, estas foram obrigadas a deixar a ilha de Timor, e refugiaram-se em Ataúro. Quando se dá início à guerra civil entre a Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente ( FRETILIN) e as forças da União Democrática Timorense (UDT). A FRETILIN saiu vitoriosa e proclamou a independência a 28/08/1975, que não foi reconhecida por Portugal.

A proclamação da independência por a FRETILIN, de tendência marxista, fez com que a Indonésia invadisse Timor-Leste. A 7/12/1975 os militares indonésios desembarcavam em Díli. (Wikipedia)

 

Finalmente, a Marina e o Roberto acabaram os exames com a aprovação a todas as cadeiras

 A Anastácia estava tanto ou mais contente que eles, não só pelos resultados dos exames, mas por estarem livres para se dedicarem ao enxoval do bebé e à decoração do seu quarto

Durante vários dias, os três percorreram a cidade para comprarem roupas para o bebé. A Anastácia queria comprar tudo o que via, mas a Marina fê-la compreender que não era precisa tanta roupa

Os gorros e as botinhas de lã, há muito tinham sido feitas pelas habilidosas mãos da Anastácia, que queria que nada faltasse ao bebé, para que crescesse saudável

Para a Anastácia o mais difícil era decorar o quarto, como escolher as cores, sem saber se era menino ou menina?

A Marina sugeriu que fosse pintado de branco, que ficava bem, tanto para menina como para menino, mas a Anastácia continuava a querer que o quarto fosse pintado de azul ou cor-de-rosa, assim que o bebé nascesse, não querendo contrariar a Anastácia, a Marina pediu-lhe se esse pormenor podia ficar para depois, porque o que interessava era que ele tivesse um lugar confortável, e isso já tinha

Em Luanda, a ansiedade, também, era muita, tanto os familiares, como os cooperantes e quem conhecia a Marina e o Roberto queriam saber se o bebé já tinha nascido

Todos sabiam que o correio só chegava de barco, não havia mais nenhum contato com Lisboa, por isso tinham de aguardar, com paciência, as novidades vindas da Europa

A Rosinha e o Governador eram os mais ansiosos, como se compreende, tratava-se de saber se tinham mais uma neta ou um neto, que não sabiam quando a ou o veriam, como já eram muito velhotes, o receio de que ele ou ela não desembarcasse em Luanda, antes de eles morrerem

Quase todas as semanas a Rosinha ia ao Palácio Presidencial para falar com compadre, na esperança de terem chegado novidades

Era sempre convidada a beber um chá, enquanto falavam dos filhos, do bebé, da dor de estarem tão longe, sem saberem nada deles.

Continua 

 

 

14
Set23

O Império

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O império – As teias que o Império teceu

26

Finalmente, a casa de Luando ficou pronta, os dois casais mudaram-se para a capital da colónia

À Rosinha custou-lhe muito deixar a sua terra, a mãe e as irmãs, a quem pediu para continuarem a fabricar a sua lavra

Ficou com mais tempo para se dedicar à filha e ao filho, uma vez que, para além da lida da casa, dividida com a cunhada, nada mais tinha para fazer

O bom rendimento do negócio dava para os dois casais viverem bem, ainda que as mulheres continuassem a dizer que não queriam, por muito mais tempo, viver da compra e venda de escravos

 Mas, por mais que puxassem pela cabeça, não encontravam nada que, de um momento para o outro, pudesse dar um rendimento, que lhes permitisse continuarem com a boa vida de Luanda 

Sem resposta, comprometeram-se a procurar uma solução.

O negócio do açúcar, que tanta mão-de-obra necessitava, foi o grande incremento da escravatura, instalado, no Brasil, com o auxílio de capital holandês, porque os senhores dos engenhos só conseguiram desenvolver o negócio, com dinheiro emprestado pela Holanda, que também participava na refinação do açúcar e na sua distribuição, pela Europa

A parceria entre Portugal e a Holanda correu bem até à perda da independência de Portugal, uma vez que a Holanda estava em guerra com a Espanha

Com a coroação de Filipe II, os holandeses foram excluídos das suas atividades no Brasil, chegando a ordenar o confisco de embarcações holandesas, que estavam em Lisboa, por diversos anos

Os holandeses resolveram reagir, para defenderem os seus interesses económicos

Em 1595, embarcações holandesas saquearam o porto português de São Tomé e Príncipe  

Em 1604, atacaram a cidade Salvador, a primeira capital do brasil, mas fracassaram

 Em 1621, os holandeses fundaram a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, a quem foi atribuída a responsabilidade pelo desenvolvimento de um empreendimento colonial holandês, nas Américas, tendo como objetivo controlar a produção de açúcar, no Brasil e os postos de comércio de escravos, em África

Em 1630, os holandeses levaram mais de 7.000 homens para atacarem Olinda, que foi conquistada a 14 de Fevereiro desse ano

Entre 1630 e 1637, os holandeses lutaram continuamente contra os portugueses

Um dos seus aliados foi o português Domingo Fernandes Calaba, que se passou para o lado holandês.

 

Continua

 

 

 

 

26
Jul23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu  

19

Entretanto a Rosinha deu à luz o seu segundo filho: um rapaz. Correu tudo bem, chegaram a acordo para que se chamasse Roberto

Toda a família estava muito feliz, mas o Januário tinha um sorriso de orelha a orelha, de tanta felicidade

A Leopoldina também parecia muito contente, mas quando o viu ao colo da mãe, ficou com ciúmes, pediu aos pais para o darem, o que acontece com muitas crianças, por verem que têm de dividir as atenções, que eram só delas, ou pior, os adultos, erradamente, mimarem mais os bebés, que nem percebem o que está a acontecer, em vez de, nos primeiros tempos, privilegiarmos os que se sentem ameaçados, por os pais dedicarem tanto tempo ao bebé

Pais, famílias e amigos, aquando da chegada de bebés, que tenham irmãos pequenos, devem  fazer um esforço para darem toda a atenção aos que se sentem preteridos pela chegada dos bebés

Com a chegada do Roberto, nova pontinha de tristeza a toldar a grande alegria de Januário, por não conseguir transmitir a sua grande felicidade à mãe e ao irmão, quanto gostariam de saber da chegada dos novos membros da família, de conhecê-los, de vê-los!

Só lhe restava tentar saber novidades de Lisboa, estava na altura das naus, da carreira da Índia, atracarem no porto de Luanda, tinha de tentar passar mais vezes junto ao cais, para ver se notava alguma movimentação

Mas as obras ocupavam-lhe muito tempo, para além do que fazia questão em passar com a mulher e os filhos

Gostava de preparar a papa e dá-la à Leopoldina, enquanto a Rosinha dava de mamar ao irmão, para que ela não  sentisse que as atenções eram todas para ele

A avó materna e as tias também estavam muito contentes com a chegada do Roberto, mas estranhavam a maneira como o Januário participava nos cuidados com os filhos, o que não admirava, porque se tratava de costumes de duas sociedades diferentes, e ainda por cima o Januário estava muito à frente, no que dizia respeito à participação dos pais, nos cuidados com os filhos, no velho continente

Muito poucos, mas houve, sempre, quem pensasse que os cuidados com os filhos era uma tarefa do casal, mas eram muito mal vistos, insultados e até agredidos, por irem contra as tradições, que funcionam como leis

O Januário queria ser diferente, apostava na harmonia, queria viver com alegria o dia-a-dia, acreditava que havia uma complementaridade entre homens e mulheres, e que todos os povos eram irmãos

Teve muitas contrariedades e problemas, devido ao seu avançado pensamento, e mais por apregoar uma coisa e fazer o seu contrário, como acontece com muito boa gente, é muito difícil ser-se coerente.

 

Continua

 

 

 

 

 

23
Mar23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

 

Este retângulo nunca foi suficiente para grandes sonhos

Com tanto mar, sempre, a desafiar-nos para irmos ver o que está para além dele

Não foi difícil, tentarmos lançar ao mar os nossos sonhos e ambições de ver novos horizontes

Marinheiros, vagabundos, negociantes, poetas, visionários, cientistas e turistas foram à procura do desconhecido

Alguns levados à força, eram precisos braços para manejar os navios, carrega-los, repara-los, soltar e fechar as velas, saber aproveitar o vento, e havia que contar com o escorbuto, que estava muito presente

Este pequeno país é feito de uma amálgama de povos, e é por isso que somos fortes, sonhadores, capazes do melhor e do pior, incapazes de nos deixarmos aprisionar por este pequeno retângulo

Somos aventureiros, curiosos, nunca ninguém nos conseguiu prender, nem mesmo a ditadura

Com as fronteiras fechadas, fomos a salto para a Europa, não somos pessoas de baixar os braços, e sempre que as condições de vida se agravam, agora, com as fronteiras abertas, agarramos no nosso passaporte de cidadãos do mundo, e vamos embora

Foi o que fizemos em 1415, e continuámos por cinco séculos, com cruzes, espadas, audácia, crueldade, conseguimos expandir a fé, espalhar portugueses e índios por todo o lado

O convívio nas caravelas nem sempre foi pacífico e, algumas vezes, os comandantes mandaram atirar homens ao mar ou atá-los, por horas ou dias, aos mastros

Também não fomos recebidos com beijinhos e abraços, nos locais onde aportámos ou impusemos as nossas leis, houve confrontos, espadeiradas, e venceu quem tinha mais força, como é natural!

Em Macau, no século passado, quando um militar ia por um passeio, os chineses passavam para o outro

Na Índia, consta que Afonso de Albuquerque mandou cortar narizes e orelhas, para saberem como era administrada a justiça do rei de Portugal

Mas nem tudo foi mau, com as teias que o Império teceu, muitos foram muito felizes nas antigas colónias portuguesas: uma vida desafogada, com muitos criados, para todas as tarefas, não havia stresse, muitos convívios, churrascos bem picantes, que boa que era a vida daquelas gentes.

Sociedades desengravatadas, muito animadas, sem as etiquetas e o frio da Europa, que se julga uma rainha.

 

Continua

 

 

 

05
Jan23

A sedutora

cheia

Lisboa! A sedutora

 

11

A despedida foi muito triste, todas as separações são muito emotivas

Já uns dias antes, um Senhor, que passava muitas tardes no estabelecimento, a quem alcunháram de brasileiro, por ter estado muito tempo emigrado no Brasil, se indignou quando o informou de que se ia embora, para outro trabalho

“ É por isso que este país nunca progredirá, estará, sempre, na cauda da Europa, agora que estavas preparado para tomar conta de um estabelecimento, vais aprender outra coisa, foram quatro anos perdidos”

Um trabalho diferente: fazer tapetes para automóveis, o automóvel era um investimento muito caro, por isso era preciso protege-lo para que durasse o mais possível

Subiu um andar, passou dos rés-do-chão para um primeiro andar, na rua da Paz, com vista para a rua dos Poiais de São Bento, onde passa o famoso elétrico nº28, da Carris

Um conterrâneo, que trabalhou numa fábrica de tapetes para automóveis, decidiu arriscar e começou a trabalhar por conta própria

Alugou umas águas furtadas, de dia visitava os standes de automóveis à procura de encomendas, de noite executava-as, no dia seguinte ia entrega-las e angariar mais encomendas

Começou com duas peças de tapetes de cairo, uma para fazer os tapetes da frente e outra para os detrás, cuja fábrica era em Cortegaça

Para concorrer com o antigo patrão, encomendou peças com menos cinco centímetros de largura

Como o negócio começou por correr bem, alugou um primeiro andar, na Rua da Paz, contratou o irmão mais velho, que cumpriu o serviço militar como maqueiro, tendo-se voluntariado para ir para Macau, com a intenção de, quando passasse à disponibilidade, ficar lá a viver

Mas chegou à conclusão de que não podia concorrer com os chineses, que se alimentavam com um punhado de arroz, por dia

Passou à disponibilidade em Lisboa, onde ficou a trabalhar nas obras

O irmão não só o contratou, como lhe pediu, emprestadas, as poupanças

Não é nada fácil passar de operário para patrão, quando não se tem capital para comprar o essencial, mas há quem arrisque e com a ajuda de um e outro consiga criar bons negócios

Deixou o bairro chique de São Mamede e foi para a freguesia das Mercês, casas pequenas, muito antigas, com escadas estreitas, com a Assembleia Nacional a olhar para elas, cheia de deputados engravatados, como que nomeados para oprimir o povo

Calçada do Combro, Rua do Poço dos Negros, Rua dos Mastros, Largo Conde de Barão, como que a fechar a Rua de São Bento.

Continua

 

 

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