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09
Mai24

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

 

59

A vitória de Correia de Sá, na reconquista de Luanda, em 15 de Agosto de 1648, deixou uma memória tão viva nos povos que, ainda, em 1812 se celebrava, em Luanda, uma festa de ação de graças, para lembrar o acontecimento

A Leopoldina, bem como a Rosinha, já há muito tempo que andavam preocupadas por não terem ninguém que as ajudasse, quando alguém ficava doente, a não ser os curandeiros, que resolviam tudo, evocando os espíritos, método em quem elas não acreditavam

Queriam criar um posto de socorros, com mezinhas, com tudo o que pudessem, para ajudar quem precisasse

Estavam preocupadas com a quantidade de mulheres, que morriam no parto, tinham de fazer qualquer coisa, para evitar que as jovens continuassem a morrer

Decidiram pedir que marcassem uma reunião das cooperantes, para saberem a opinião delas, saber o que é que elas sabiam, no sentido de contarem com as que pudessem ajudar, nos partos mais complicados    

       

 José Álvares Maciel foi um engenheiro e político brasileiro. Aos vinte e um anos de idade seguiu para Universidade de Coimbra, a fim de seguir o curso de Filosofia Natural, onde se destacou, foi encarregado por Domingos Vandelli, para realizar pesquisas mineralógicas, na serra da Estrela

Concluído o curso, seguiu para Inglaterra, para estudar as indústrias de Birminghan, nomeadamente as siderurgias e as manufaturas têxteis, tendo entrado em contato com as ideias do liberalismo e da maçonaria

Entre dezembro de 1787 e março de 1788 encontrou-se, na Universidade de Coimbra, com José Joaquim da Maia, que já se tinha avistado com Thomas Jefferson, embaixador dos Estádios Unidos da América, em França, de quem obtiveram uma promessa de apoio dos norte-americanos, para a independência de Minas Gerais

Em 1788, chegou ao Rio de Janeiro, encontrou-se com o Tiradentes e com o visconde de Barbacena, que tinha chegado ao Brasil, para assumir o posto de Governador da Capitania de Minas Gerais

O encontro foi providencial para os três: Tiradentes obteve as notícias, que aguardava sobre o apoio de potências estrangeiras; Barbacena reencontro o amigo mineralogista;  Maciel entrou em contato  com os revolucionários, dos quais recebeu o convite para residir no Palácio dos Governadores, em Vila Rica

Maciel mantinha os conspiradores a par das atividades do Governador, que o encarregou de prospeções mineralógicas em Sabará, Caeté, nos arredores de Vila Rica

Após esforços contrários ao próprio Governador, foi detido pela Devassa

Remetido para interrogatório, no Rio de Janeiro, onde foi condenado à morte, tendo a pena sido comutada em degredo perpétuo em Angola, para onde seguiu em 23 de Maio de 1792

Chegou a Luanda a 20 de Junho de 1792, com pneumonia e escorbuto, foi internado na enfermaria do Forte de São Francisco do Penedo.

 

Continua

 

 

10
Ago23

O Império

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O Império  -  As Teias que o Império Teceu

 

21

O Comandante, que a tinha em muita consideração, disse que podiam sair os dois, desde que deixassem o trabalho feito, não se demorassem e não se afastassem muito do cais, para evitarem as ruas mais perigosas

Estava ultrapassada uma das dificuldades: a saída de ambos, o Comandante tinha caído na armadilha, que a Miquelina lhe atirara, com muita naturalidade, dando a entender que  trocaria a visita a Luanda, que muito gostava de ver, pela segurança da sua vida

Tinha de transmitir, ao Ezequiel, a decisão do Comandante, lembrando-lhe que não poderiam  dar a entender que estavam a abandonar o navio. Assim, só conseguiriam levar o que vestissem e pouco mais

À medida que se aproximava a chegada a Luanda, aumentava o seu nervosismo, era um grande salto para o desconhecido

Para piorar o ambiente, o setor à sua responsabilidade dava os sinais habituais: falta de alimentos frescos, a água cheia de bichos, o que estava a causar o aparecimento de mais marinheiros com escorbuto

Os que mais sofriam eram os niquentos, que não comiam de tudo, que ao fim de tanto tempo no mar, já não conseguiam comer o que restava

Tudo o que estava a acontecer: falta de apetite, água com bichos, o mal de Luanda (escorbuto), só poderia indicar que estavam muito perto de Luanda

O Ezequiel e a Miquelina esforçavam-se para que a comida fosse o melhor possível, mas ninguém consegue fazer omeletas sem ovos

Miquelina passava os dias a pensar na saída, em Luanda, na melhor maneira de saírem, com a maior quantidade de roupa, possível, sem que dessem nas vistas

Enquanto a Miquelina andava a matutar como seria o futuro, o Ezequiel passava os dias tranquilo, porque ela, ainda não tinha tido oportunidade de lhe dizer que o Comandante tinha autorizado que saíssem juntos

Sem saber quantos dias faltariam para chegarem a Luanda, lá lhe conseguiu dizer que sairiam juntos, sem tempo para falar de pormenores

Quando começaram a avistar terra, gerou-se uma grande euforia como, sempre, acontecia

A Miquelina aproveitou a oportunidade para dizer ao Ezequiel como deveria proceder quando abandonassem o navio

A pouco-e-pouco as naus foram-se aproximando do cais de Luanda, e a alegria a todos contagiou, esperava-os o trabalho do reabastecimento e o passeio à cidade.

Continua

 

  

30
Mar23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

2

Os descobrimentos portugueses foram um grande empreendimento, não foi menor o sofrimento, lutar no oceano contra o vento, o imprevisto, o desconhecido, tudo foi tão sofrido

Não foram só os elementos naturais, que tiveram de enfrentar, também a alimentação foi uma grande preocupação: falta de alimentos, alimentos estragados, água cheia de bichos, um inferno, de muitos, desconhecido

Nem com a primeira estação de serviço, na Ilha Terceira, em Angra do Heroísmo, os problemas foram resolvidos, seriam precisas muitas mais estações de serviço entre Lisboa e Nagasaki

Contra ventos e marés, os portugueses nunca viraram a cara ao perigo, e com arte e engenho lá foram criando fortalezas, feitorias, erguendo padrões, tudo para conseguirem controlar o comércio da seda e das especiarias da Índia

Oh imenso mar, se pudesses falar, muito poderias dizer, sobre a bravura dos portugueses!

Tanta gente que morreu, de um país tão pequeno, para saberem o que havia para além de ti

Criaram um Império, que ia de onde o sol nasce até ao pôr, e também o meio-dia o via

Para ficarmos famosos, para nos livramos” da lei da morte” tudo fazemos, de todos os sacrifícios somos capazes, querermos ser famosos, faz-nos ser audazes

Vasco da Gama ficou famoso por ter conseguido ir à Índia, mas fala-se menos dos custos, de quantas vidas foram perdidas, de quantos filhos ficaram órfãos, de quantas mães perderam os filhos, de quantas noivas ficaram por casar, de quantas mulheres ficaram sem marido

No regresso da sua primeira viagem, o seu irmão, Paulo da Gama, adoeceu, diz-se com o mal de Luanda, (o escorbuto) outra designação, porque tanto as naus que saíam de Lisboa, em direção à Índia, como as que saíam da Índia em direção a Lisboa, antes de chegarem a Luanda, já todos os alimentos frescos tinham acabado, quase tudo já estava estragado, e a doença aparecia

O irmão tentou salvá-lo, ordenou que se dirigissem para a Ilha Terceira, para Angra do Heroísmo, sendo que a uma das naus foi dada ordem de que seguisse para Lisboa, para darem a boa nova ao Rei

Não resistiu, chegou morto ou muito doente, ficou sepultado na Ilha Terceira, em Angra do Heroísmo, no meio do Atlântico, foi o preço pago por ter tido a oportunidade de participar na primeira viagem à índia

Os anónimos, os que não têm nome, aqueles que ninguém sabe quem são não tiveram tanta sorte, não tiveram sepulturas eternas, foram atirados ao mar.

 

Continua

 

 

 

 

23
Mar23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

 

Este retângulo nunca foi suficiente para grandes sonhos

Com tanto mar, sempre, a desafiar-nos para irmos ver o que está para além dele

Não foi difícil, tentarmos lançar ao mar os nossos sonhos e ambições de ver novos horizontes

Marinheiros, vagabundos, negociantes, poetas, visionários, cientistas e turistas foram à procura do desconhecido

Alguns levados à força, eram precisos braços para manejar os navios, carrega-los, repara-los, soltar e fechar as velas, saber aproveitar o vento, e havia que contar com o escorbuto, que estava muito presente

Este pequeno país é feito de uma amálgama de povos, e é por isso que somos fortes, sonhadores, capazes do melhor e do pior, incapazes de nos deixarmos aprisionar por este pequeno retângulo

Somos aventureiros, curiosos, nunca ninguém nos conseguiu prender, nem mesmo a ditadura

Com as fronteiras fechadas, fomos a salto para a Europa, não somos pessoas de baixar os braços, e sempre que as condições de vida se agravam, agora, com as fronteiras abertas, agarramos no nosso passaporte de cidadãos do mundo, e vamos embora

Foi o que fizemos em 1415, e continuámos por cinco séculos, com cruzes, espadas, audácia, crueldade, conseguimos expandir a fé, espalhar portugueses e índios por todo o lado

O convívio nas caravelas nem sempre foi pacífico e, algumas vezes, os comandantes mandaram atirar homens ao mar ou atá-los, por horas ou dias, aos mastros

Também não fomos recebidos com beijinhos e abraços, nos locais onde aportámos ou impusemos as nossas leis, houve confrontos, espadeiradas, e venceu quem tinha mais força, como é natural!

Em Macau, no século passado, quando um militar ia por um passeio, os chineses passavam para o outro

Na Índia, consta que Afonso de Albuquerque mandou cortar narizes e orelhas, para saberem como era administrada a justiça do rei de Portugal

Mas nem tudo foi mau, com as teias que o Império teceu, muitos foram muito felizes nas antigas colónias portuguesas: uma vida desafogada, com muitos criados, para todas as tarefas, não havia stresse, muitos convívios, churrascos bem picantes, que boa que era a vida daquelas gentes.

Sociedades desengravatadas, muito animadas, sem as etiquetas e o frio da Europa, que se julga uma rainha.

 

Continua

 

 

 

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