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25
Fev21

Vidas (16)

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Vidas

Continuação  (16)

AS mulheres, naquele tempo, não tinham muitas hipóteses de emprego. O habitual era ficarem em casa, a tomarem conta do filho, ou na redoma de vidro, à espera do marido, levar os filhos ao colégio, jogar à canasta com as amigas.

 As freguesas diárias a quem, todos os dias, ia perguntar o que necessitavam, porque não havia onde os alimentos conservar, quase todas tinham criadas: uma, duas, três ou mais

Tudo dependia do estatuto social, ou do agregado familiar. Os casais que tinham três, quatro ou mais filhos, e possibilidades, tinham pelo menos três criadas: a cozinheira, a criada de fora e a dos meninos

Como não havia eletrodomésticos, tudo era feito manualmente! A lavagem da roupa ficava a cargo das lavadeiras de Caneças, que semanalmente traziam a trouxa lavada e levavam a suja

As que trabalhavam fora de casa, para além das vendedeiras, porteiras: classe baixa, eram as enfermeiras, as hospedeiras de bordo, as professoras

Os homens tinham de assegurar o rendimento para o lar. Quem não conseguia pagar uma renda de casa, tentava arranjar outro casal para a ajudar a pagar ( parte de casa), e casais havia, que alugavam um quarto, fazendo com que três casais vivessem numa casa: a dona da casa e mais dois casais, com direito a serventia da cozinha e casa de banho (uma) 

Foram estas condições de habitação, que fizeram com que os prédios, que nasceram como cogumelos, à volta da cidade, principalmente ao longo da linha férrea de Sintra, parecessem um paraíso

Ter ou alugar uma casa foi o que fez com que os mais pobres tenham sido empurrados para fora da cidade. Primeiro foi para a Amadora, depois toda a linha de Sintra, e ultimamente, muitos, dos que vivem no litoral Oeste, vão todos os dias trabalhar para Lisboa. Um país amontoado no litoral e deserto no interior

Um conterrâneo, do José, foi, para Lisboa, trabalhar para uma fábrica de tapetes para automóveis. Ao fim de alguns meses decidiu ir trabalhar por conta dele. Alugou umas águas furtadas, comprou dois rolos de tecido em cairo, para tapetes, um para fazer o tapete da frente e outro o de trás. Durante o dia visitava os standes, para angaria encomendas, de noite fazias, e no dia seguinte ia entrega-las. Naquele tempo, o automóvel era uma preciosidade, por isso era preciso estimá-lo. Assim, vendiam-se muitos tapetes, em cairo, para protege-los.

Devido ao crescimento do negócio, alugou um primeiro andar na rua da paz. Convidou o irmão mais velho, que trabalhava nas obras, depois de ter vindo de Macau, para onde tinha pedido para ir cumprir o Serviço Militar, como maqueiro, com a intenção de ficar por lá. Mas chegou à conclusão que não podia competir com os chineses

Como o negócio continuava a crescer, disse ao José se queria ir trabalhar para ele. José tinha a oportunidade de ter um horário de trabalho de 48 horas semanais. Pela primeira vez ia ter um dia de folga: o domingo

Ainda podia fazer horas extraordinárias, pagas à peça, receberia uma importância, a combinar, por cada tapete e uma mensalidade superior ao que estava a ganhar. O José ficou de lhe dar uma resposta.

Continua

 

 

08
Fev21

Vidas! (10)

cheia

Continuação (10)

 

José ficou algum tempo a saborear a liberdade de não saber o que ira fazer. Não foi por muito tempo, porque um vizinho, que tinha 4 ou 5 ovelhas, sem ter quem as guardar, propôs uma parceria ao Francisco: o José guardava as ovelhas, e os filhos que tivessem eram divididos pelos dois

Uma vizinha quando estava à porta, e ele passava Monte abaixo, atrás das ovelhas, dizia: “ andaste tu a estudar, para agora andares a guardar ovelhas”. José nunca lhe respondeu, seguia o seu caminho, na esperança de que um dia o vento mudasse

Ao fim do dia, quase todos os dias, juntava-se a um pastor, já com idade para se reformar, mas como o rebanho era dele, não achava jeito em o deixar. Dava-lhe o que tinha sobrado do seu almoço, para ele lanchar: pão com azeitonas, ou toucinho. Ambos gostavam daqueles encontros diários, falavam dos seus problemas e do que os rodeava

No inverno, um dia muito chuvoso, cruzaram-se logo de manhã, arranjaram um abrigo e mantiveram as ovelhas num espaço, onde havia uma planta, que podia não ser muito bem tolerada, pelos borregos, e ainda menos molhada: a alfavaca-dos-montes

Na manhã seguinte, quando se preparava para soltar as ovelhas, apercebeu-se que dois borregos tinham morrido. Sentiu-se culpado por o que tinha acontecido, devia ter ido para outro local, mas preferiu abrigar-se da chuva e estar todo o dia na conversa com o pastor

Foi dizer à mãe o que tinha acontecido, que lhe disse onde o pai estava a trabalhar, para o ir informar, para que os esfolasse e aproveitassem a carne, uma vez que tinham morrido de congestão, não tendo perigo para o consumo humano

Francisco não ralhou com o filho, mas disse-lhe que a parceria tinha acabado. A partir daquele dia, José estava desempregado, sujeito a qualquer momento ter de ir trabalhar para outro lado, o que implicava deixar a sua casa, deixar de ter contato diário com os irmãos e os pais

Foi o que aconteceu, passados alguns dias apareceu o primeiro patrão. José passou a ir a casa, só de visita. Foi o segundo corte umbilical. Com apenas dez anos perdeu, para sempre, o contato diário com os pais e os irmãos. Sentiu-se do afastamento, ter de viver em casas de pessoas, que não conhecia, como um intruso, sem carinho, apenas com a indiferença com que tratavam os criados

Um Senhor, que viva na sede da sua Freguesia, Santa Cruz, convenceu Francisco a que deixasse ir o filho guardar-lhe os porcos. Francisco não estava com muita vontade de o deixar ir, e foi dizendo que estava a ver se arranjava maneira de que fosse fazer a admissão ao Liceu. Ao saber do que o Francisco, para o filho, queria, o Senhor jugou a sua cartada, dizendo que na sua casa vivia a Professora Primária, que lhe daria explicações para fazer a admissão ao Liceu

Foi com uma falsa promessa, que o José foi arrancado do seu lar, para ir trabalhar. Lá foi, para Santa Cruz, para os porcos guardar, mais tarde ou mais cedo tinha de ser, o seu berço perder

O seu patrão e outros Senhores, de Santa Cruz, queriam implantar uma feira na sede da Freguesia. Para tentarem atrair os negociantes, ordenaram aos criados para que todas as quartas-feiras levassem os porcos, as vacas, as ovelhas, os machos, as mulas, as éguas, os cavalos, as burras e os burros para um largo à entrada da Freguesia

As semanas foram passando, mas os negociantes não apareceram, o sonho morreu, a ideia não deu, mas em alguns locais, foi assim que a feira nasceu

 Passado um mês ou mais, José estava com tantas saudades dos pais e dos irmãos, que, depois do jantar, disse ao patrão que ia visitá-los. Estava luar, meteu os pés ao caminho, deviam ser uns cinco quilómetros ou mais. Foi uma alegria voltar a vê-los, mas não se pôde demorar, porque tinha de voltar, para no outro dia trabalhar.  O pai perguntou-lhe se a Professora já lhe tinha começado a dar as explicações para a admissão ao Liceu. O José disse-lhe que ela nem sequer lhe dava os bons dias e boas noites. Francisco ficou irritado por ter sido enganado. Era uma pessoa muito séria. Educou os filhos, dizendo-lhes para não mexerem no que não era deles, nem fizessem aos outros o que não gostassem que lhes fizessem

Quando se despediram, disse-lhe que quando pudesse iria falar com o patrão dele.       

 

Continua

 

 

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