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cheia

cheia

18
Set20

Santa Cruz dos Dembos

cheia

Mazelas da guerra

Fazenda Santa Cruz dos Dembos

                                                                             Continuação

Um procedimento, que me chamou à atenção, foi o de que, quando caminhavam, nas picadas, e avistavam as nossas viaturas, as pessoas afastavam-se das bermas uns 10 a 20 metros

 Não consegui saber a razão, mas suponho que deve ter a ver com procedimentos menos corretos, no início da guerra

Para quem não saiba, quando a guerra começou, em 1961, no Norte de Angola, houve muita violência de parte a parte

Por isso, talvez, ainda, se lembrassem dos tempos negros do início da guerra

Durante os 9 meses que estivemos no Norte de Angola, acho que nenhum militar da minha companhia teve relações sexuais com as mulheres das povoações, ao contrário do que aconteceu, quando fomos para a zona de Nova Lisboa

Dizia-se que o avião que levava o pré, para Maquela do Zombo, também transportava as prostitutas

Durante os 9 meses que estivemos naquele acampamento, nunca lá vi nenhum civil, evitavam a nossa companhia

Mesmo assim tínhamos, todos os dias de içar e arriar a Bandeira Nacional, às 6 e 18 horas, para que aprendessem as suas cores, coisa que não fomos capazes de fazer em cinco séculos, tal como não lhes conseguimos ensinar a nossa língua

 

Antes do Natal de 1969, ainda estivemos 2 meses destacados na Fazenda Santa Cruz dos Dembos, uma fazenda de café, cuja variedade de cafeeiros tinha de ter sombra

Uma mata tão densa, que quase não se via o sol, desbastavam-na, deixando algumas árvores muito altas, para fazerem sombra aos cafeeiros

Na fazenda trabalhavam cerca de 70 trabalhadores vindos do centro de Angola, porque os do Norte só se dedicavam à construção de armadilhas para caça e pesca

Estes homens estavam a abrir uma picada, cortando arvores, que 2 homens não conseguiam abraçar, só com machados

Quem os comandava, um Cabo-verdiano, estava constantemente a dizer que queria ouvir a sinfonia dos machados

Nós tínhamos como missão dar-lhes proteção, como estavam destacados 2 pelotões, dia-sim-dia-não, lá íamos

Num dos dias em que ficámos de descanso, o outro pelotão sofreu uma emboscada, uma rajada atingiu 2 soldados, que tiveram de ser evacuados, para Lisboa, felizmente ficaram bem

A Companhia tinha um Furriel Miliciano com a especialidade de enfermeiro, coadjuvado por três ou quatro maqueiros, que sabiam dar injeções e fazer pensos

O maqueiro que estava connosco era louco por borboletas, passava o tempo todo a injeta-las, para as embalsamar

Um dia teve de dar uma injeção, ao Alferes do meu pelotão, a qual lhe causou uma grande infeção, teve de ser internado, porque a seringa não estava devidamente desinfetada

Já não me lembro se os trabalhos passaram a ser dia-sim-dia-não, o que me lembro é um dia estava com o outro Alferes, e depois do almoço, perguntou-me se era voluntário para ir com ele, porque queria saber para onde ia a picada, respondi-lhe que na tropa não era voluntário para nada

Ordenou-me que fosse com ele, mais dois soldados e um guia, munido de catana, para abrir o caminho, para que pudéssemos penetrar naquele labirinto.

As horas foram-se passando, já não sabíamos como sair dali, começámos por marcar as árvores, não adiantou, a seguir foi por votação, quando três diziam para onde era, lá íamos, mas também não resultou

 Disse-lhe que o melhor era fazermos fogo para o ar, na esperança de que os nossos camaradas, que tinham ficado a dar proteção aos trabalhadores, nos respondessem

Felizmente resultou, conseguimos, antes de o sol se pôr, sair do labirinto

Caso estivesse por ali perto, algum inimigo, tinha-nos apanhado à mão, porque a nossa desorientação era total

Monangambé, que significa contratado, é um poema de António Jacinto, musicado em 1960, às escondidas, por Rui Mingas

Letra de Monangambé

Naquela roça grande

não tem chuva

é o suor do meu rosto

que rega as plantações;

Naquela roça grande

tem café maduro

e aquele vermelho-cereja

são gotas do meu sangue

feitas seiva

o café vai ser torrado

pisado,

torturado,

negro da cor do contratado

 

Negro da cor do contratado!

 

Perguntem às aves que cantam,

aos regatos de alegre serpentear

e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?

quem vai à tonga?

quem traz pela estrada longa

a tipóia ou o cacho de dendém? 

Quem capina

e em troca recebe desdém

fuba podre,

peixe podre,

panos ruins,

cinquenta angolares

 porrada se refilares”?

Quem?

Quem faz o milho crescer

E os laranjais florescer?

- Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar

máquinas,

carros,

senhoras

e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar

ter barriga grande

ter dinheiro?

_ Quem ?

e as aves que cantam

os regatos de alegre serpentear

e o vento forte do sertão

responderão:

- “ Monangambééé…..”

Ah! Deixem-me ao menos

subir às palmeiras

Deixem-me beber maruvo  ( seiva de palmeira, retirada junto às folhas, como se faz para retirar a resina)

E esquecer

diluído nas minhas bebedeiras.

 

Já tinha ouvido a canção dos contratados, mas nunca me tinha cruzado com eles

Quis o destino que primeiro visse o que faziam e como eram tratados, e menos de um ano depois, sem contar, assistisse ao seu recrutamento

Estava nos arredores de Nova Lisboa, quase pôr-do-sol, quando vi um grande alvoroço, numa das povoações dos arredores da cidade

Fui até lá, fiquei à distância a observar. Estavam todos reunidos, mulheres e homens, as mulheres agarravam-se aos seus homens, gritavam e choravam, o Soba ia correndo olhar por todos, de repente apontava para um, que imediatamente entrava no autocarro, que os iria levar, sem qualquer contestação

Assim que o autocarro ficou cheio, fecharam as portas. Disseram-me que partiriam na madrugada do dia seguinte

Diziam que aqueles homens, quando regressassem, os que o fizessem, pouco ou nada trariam, porque tinham de pagar a alimentação, o alojamento, etc.

 

Continua

 

 

 

   

 

  

 

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