Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

O nascimento de uma Escola

O nascimento de um Escola (3)

 

Segunda classe

 

Nova Escola, nova Professora

A Escola só funcionou um ano no Monte do Lobato

No ano seguinte mudaram a Escola para o Monte da Corcha, para uma casa contígua à de José

Não poderia ter tido melhor prémio, pela passagem de classe!

Foram três anos a sair de uma porta e entrar noutra

A nova Professora fez-se acompanhar de um aparelho, até então, nunca visto: uma telefonia sem fios!

A TSF era um aparelho muito esquisito, dele saíam vozes e músicas

Os alunos raramente tinham oportunidade de ouvi-la, apenas uns minutos, no intervalo do almoço

Num dos dias em que a Professora ligou o aparelho, uns minutos antes da saída, José decorou um sequetche humorístico dos Parodiantes de Lisboa, o qual reproduziu em casa, mas a mãe repreendeu-o, dizendo-lhe para não repetir o que tinha ouvido

A Professora, de vez em quando, pedia a dois alunos, para irem a São Pedro de Solis, fazer-lhe compras, e eram sempre os que viviam no Monte onde estava instalada a Escola, porque os outros ainda tinham de ir para os seus montes

De uma das vezes, o bacalhau estava mal embrulhado, e eles tiraram um pouco, de maneira a não se notar, para provarem.

As Professoras passavam quase todo o ano nas Escolas. Só iam a casa no Natal, na Páscoa e nas férias grandes

A segunda Professora, quando ia de férias, pedia a dois alunos para a acompanharem até Alcaria Longa, a localidade mais perto, onde passava uma camioneta para a sua terra.

De uma das vezes a camioneta chegou bastante atrasada, fazendo com que uma grande parte do regresso dos rapazes se fizesse de noite

O companheiro do José não estava habituado a andar de noite, sempre que via sombras, que se parecessem com pessoas, parava e nada o fazia avançar

O José sem saber mais que lhe dizer para o convencer, colocou-se junto ao obstáculo, que não o deixava continuar, para que ele se convencesse que eram, apenas, sombras

Não é fácil controlar os nossos medos, o que fazia com que, o companheiro do José, estivesse constantemente a estacar.

O silêncio da noite, no campo, é assustador, fazendo com que o mais pequeno barulho, pareça uma tempestade

No fim do período letivo foram novamente, a São Pedro de Solis, fazer a passagem da segunda para a terceira classe.

Terceira classe, terceira Professora. Foi um ano calmo, à exceção do muito trabalho, porque já não era uma passagem, mas um exame!

Para fazerem o exame da terceira classe foram a São Miguel do Pinheiro.

A Professora já não entrou na sala, no ato do exame, alguns ficaram nervosos, e uma rapariga de dez ou onze anos, de quem o José gostava, não fez os problemas

Quando saíram da sala, ela correu para ele, lavadas em lágrimas, dizendo o que se tinha passado

O pai dela aproximou-se, já sabia que ela não tinha passado, leu-lhe ali a sentença: “não voltas para a Escola, já és uma mulher, vais ajudar a tua mãe”

A rapariga bem pedia e implorava ao pai que, pelo menos, a deixasse fazer a terceira classe

Mas, não conseguiu que ele voltasse atrás!

Foi no meio de uma grande tristeza, que se despediram, não se voltando a ver.

Na quarta classe tiveram direito a uma Professora, que já conheciam da segunda classe.

 

José Silva Costa

 

  1. O post sobre a quarta classe, já publicado, tem o título : “ As meias de vidro”

 

 

publicado por cheia às 19:56
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12 comentários:
De HD a 20 de Fevereiro de 2018 às 21:13
Belas memórias... :-)
Uma telefonia sem fios!


De cheia a 20 de Fevereiro de 2018 às 22:14
Não valia a pena ter fios, porque a eletricidade só lá chegou depois do 25 de Abril de 1974. Quando o interior já estava a ficar despovoado. Os jovens foram obrigados a irem para a guerra, os que regressaram preferiram ir para França, Bélgica, Suíça, Alemanha, etc.,


De jabeiteslp a 21 de Fevereiro de 2018 às 08:41
Parabéns ao exposto
e também às memórias
de tão longínquas Histórias...

Lá onde nasci, Benquerença
reguadas em quem não pensa
por assim dizer.

Bom resto de Semana


De cheia a 27 de Fevereiro de 2018 às 21:48
Obrigado pelas palavras com muito gosto. Recordar o passado, para que os novos acreditem no futuro. Para muitos, todo o tempo é duro.

Uma boa semana


De Carlos a 21 de Fevereiro de 2018 às 09:11
Memórias a preservar estas meu caro amigo!
Tempos tão diferentes, para quem não os viveu parecem irreais.
Grande abraço.


De cheia a 21 de Fevereiro de 2018 às 21:26
Um pequeno contributo, para que quem os não viveu saiba o que aconteceu!


De omeumaiorsonho a 21 de Fevereiro de 2018 às 13:09
Gosto tanto ouvir histórias de outros tempos!!


De cheia a 21 de Fevereiro de 2018 às 17:50
É uma contribuição, para que os mais novos saibam mais um pouco sobre o passado.


De O ultimo fecha a porta a 21 de Fevereiro de 2018 às 23:44
Telefonia sem fios.
Hoje o tema a internet nos telemoveis :) Que progresso!


De cheia a 22 de Fevereiro de 2018 às 22:01
Sim. Andar com o Mundo no bolso! Mas, também foram importantes: a telefonia, a televisão, o plástico,a esferográfica, o computador, o fax. Sendo que o mais extraordinário foi a internet.


De mami a 22 de Fevereiro de 2018 às 22:37
ao ler o teu texto, como mulher, foco-me na parte em que as meninas deixavam precocemente a escola "para ajudar a mãe em casa"... fico tão feliz pelas coisas terem evoluído, pelo meu pai ter sentido um orgulho enorme por eu ter ido pela faculdade (até então, ninguém na minha família tinha ido) e por a minha filha encontrar um mundo mais igualitário.


De cheia a 22 de Fevereiro de 2018 às 23:23
Ainda bem que evoluíram, porque há pouco tempo que as mulheres têm igualdade de direitos. As minhas professoras não se podiam casar sem a autorização do ministro da educação! A minha mãe não foi à escola, não havia escola, foi dois dias a uma mestra, depois ficou em casa para ajudar a criar os irmãos, não aprendeu a ler.


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