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cheia

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10
Jan16

Lisboa

cheia

Lisboa

Lisboa, como pudeste empurrar, para fora, os que te invadiram, a partir dos anos cinquenta? Ou faram eles fartos de viverem em quartos, com direito a servirem-se da cozinha e da casa de banho, que te abandonaram ? Chegaram a viver mais de duas famílias na mesma casa, sem privacidade, sempre a meterem-se na vida uns dos outros.

Mas não tinham outro remédio, não tinham rendimentos para pagarem a renda de uma casa. A maioria vivia apenas do ordenado do homem, porque a tradição era as mulheres ocuparem-se da lida da casa e dos filhos. As classes com mais rendimentos, não só podiam pagar a renda de uma casa, como tinham uma, duas ou mais criadas de servir, de acordo com o seu estatuto social.

Muitos não resistiram ao fascínio da construção dos dormitórios, que a cidade viu crescerem à sua volta.

Que coisa mais atraente: uma casa acabadinha de construir, novinha em folha, com cheiro a tinta fresca, tão diferente das da Capital : velhinhas, e algumas sem casa de banho!

A habitação, em Lisboa, foi sempre um problema muito delicado, em que os inquilinos, antigamente, tinham algumas garantias de que não seriam despejados, quando menos o esperassem.

Mas, algumas pessoas ainda vivem em casas sem o mínimo de condições, sempre à espera que elas lhes caíam em cima.

A nossa casa é o nosso aconchego, que tentamos preservar a todo o custo, e se possível, que seja nossa. Assim, quantos de nós nos metemos em empréstimos, quase impossíveis de pagar, para garantirmos esse bem tão precioso, um sonho, que muitos perderam com a crise de 2008, que veio por tudo em causa!

A formosa , enigmática, fresca e fascinante Sintra, sempre, foi atração para muita gente, mas não terão sido essas qualidades, que fizeram com que ao longo da sua linha férrea, se tenha construído o maior dormitório de Portugal. Com muito espaço e muito comprador a exercer pressão, foi construir até à exaustão. A pontos do comboio não dar vazão, tendo sido necessário, até ao Cacém, a sua duplicação!

Sintra: sala de visitas de Portugal, continua a muitos fascinar. Ladeada pelo Monte da Lua: sua frondosa serra, é um lugar de encantar, desce suavemente até ao mar, “ onde a terra acaba e o mar começa”, no ponto mais Ocidental da Europa.

Mas viver na linha de Sintra é um fascínio ou uma necessidade?

Seja o que for, primeiro foi a Amadora, com os seus novos prédios, juntinhos à estação dos caminhos- de- ferro, que fizeram muita gente pensar, e muitos hesitar, porque custava muito, tudo para trás deixar, de muita coisa abdicar: os jardins, os parques, principalmente o Parque Mayer, os cinemas, os cafés, os teatros, os liceus, as escolas primárias, as universidades, os hospitais, a feira popular, a feira do livro, a feira da ladra, o jardim zoológico, o aquário Vasco da Gama, a praça de touros, os bairros populares, as casas de fados, a procissão da Senhora da Saúde, as marchas populares, o coliseu dos recreios, o rio, a estufa fria, os museus, os vizinhos e tantas, tantas coisas, que só um Capital tem à mão de semear!

Na periferia a vida fica muito mais vazia: já não temos tempo para ir lado nenhum, tudo parece tão longe e inacessível.

Ao longo da linha de Sintra a construção cresceu de tal maneira, que o espaço tornou-se numa floresta de cimento: tudo tinha comprador, já construído, em construção, em projeto, o que fez com que muitos que adquiriram as casas, cofiando nos bonitos desenhos que lhes mostraram, nunca viram as casas construídas.

Os construtores civis tinham tanta influência e poder, que impuseram a construção de novas estações, como foi o caso da Reboleira, porque , só o facto de ter transporte à porta, valorizava e ajudava muito a vender as casas. Mas, também as vias rodoviárias foram condicionadas, para que as pessoas que viviam na Amadora tivessem prioridade sobre os que vinham de Sintra, e queriam virar em direção a Belém, ficavam tempo interminável, até que todos os que vinham da Amadora passassem, uma vez que se apresentavam pela direita. Mais tarde, depois de passar a imposição dos construtores, reservaram uma das fachas para a entrada dos outros. Os construtores eram os donos das Câmaras, do futebol, etc.

Noutras localidades não se lembraram das acessibilidades, como aconteceu no Cacém, foi só construir colmeias, o pior foi quando os moradores demoravam mais de uma hora, só para saírem da sua localidade. Com a requalificação do centro do Cacém e o alargamento do IC19 para seis fachas de rodagem, as coisas melhoraram. Mas viver, nos dormitórios da linha de Sintra, continua a ser muito difícil. E daqui a uns anos não sei se não será mesmo impossível ali permanecer

Se a crise se agudizar

Se o desemprego continuar

Se a fome apertar

Se a vida na província melhorar

Muitos terão, à terra dos antepassados, voltar

Se um dia aquele dormitório ficar sem viva alma, sem cão nem gato, nem pássaro nem rato, com as ruas cobertas de automóveis velhos, repletas de desespero, então, ninguém conseguirá entrar naquele cemitério.

 

José Silva Costa

  

 

 

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