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30
Out25

O Império

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O Império   -   As teias que o Império teceu

137

A noite pareceu-lhes muito mais longa, mal o sol rebentou, voltaram a encontrar-se, para continuarem a jornada, que o escuro tinha interrompido

Beijaram-se como senão se vissem há séculos, os seus olhos continuavam a brilhar como no primeiro minuto em que se cruzaram, pareciam quatro rosas a desabrochar, estrelas a cintilar, como que a quererem os corpos hipnotizar, fazendo-os abraçarem-se e o tempo parar

Queriam saber o mais possível um do outro, para avaliarem se o seu enlace era compatível com o que cada um queria, para o futuro

Não tinham tempo a perder, aquele encontro tinha sido uma estrela a iluminar as suas vidas, pela qual tanto esperaram, não querendo, nem um, nem outro, perder tempo em vão

Não pretendiam perder muito tempo a namorar, queriam casar-se, viver juntos, muito felizes, para sempre. Estavam de acordo em ter filhos, sem os quais não se sentiriam realizados

Apesar de se conhecerem, havia tão pouco tempo, a Jesuína estava deslumbrada pela coincidência de gostos e ideais, que ambos já tinam revelado um ao outro

Como futura mãe preocupava-a a educação dos filhos, sabendo que são as mães, nos seus primeiros anos, que mais tempo estão com eles, tendo muita influência na sua educação, o que fazia com que quisesse, para pai dos seus filhos, um homem que estivesse disponível, para a ajudar nessa tarefa

Não concordava com a nova moda, defendida por algumas mulheres, de que sozinhas os educavam tão bem, como se fossem os dois progenitores, para ela era indispensável o exemplo do pai e da mãe, só esse equilíbrio os poderia preparar para o futuro, para uma convivência saudável com os dois sexos, necessários para a conceção

Estava consciente de que tinha de dar tempo ao tempo, durante o namoro teriam muitas oportunidades de falarem sobre todos os assuntos importantes, tentando acertar o passo, para que quando casassem tudo corresse bem

Quem ficou, também, muito contente, com o namoro, foi o Manuel, pai da Jesuína, que deseja ver todas a filhas casadas. Mesmo não conhecendo o Aurélio, estava certo de que a filha, tal como as outras 4 irmãs, que tinham bons maridos, também, era capaz de encontrar um bom companheiro. Se aquele romance fosse bem-sucedido, só faltava a Francisca encantar um parceiro, para que visse as filhas todas casadas e cumprido o seu grande sonho.

Continua

 

23
Out25

O Império

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O Império    -    As teias que o Império teceu

 

O Miguel conferenciou com a Zulmira, para combinarem o que escreveriam ao Rei de Portugal, para lhe darem a boa nova de tão proveitoso acordo

 Na carta, que iriam enviar ao Rei, quando houvesse portador, isto é, quando o barco da carreira da Índia atracasse ao porto de Luanda, sendo que a resposta poderia demorar muitos meses

Quem não perdeu tempo foi o Zico que aproveitou as boas relações, com os vizinhos do Norte, para lhes fazer uma visita, acompanhado de mais três sócios da cooperativa, no sentido de trocarem experiências sobre as culturas, os produtos cultivados e o possível intercâmbio entre a cooperativa e os agricultores do Reino a Norte de Luanda

Antes de regressarem a casa, ainda, foram recebidos pelo Rei, que lhes agradeceu a visita, acrescentado que estava muito contente pelo interesse demonstrado em ensinarem, aos seus agricultores, novas técnicas e a sementeira de novas culturas, o que muito contribuiria para mais produção de alimentos e a esperança de eliminar a fome

No dia seguinte, a Jesuína e o Aurélio voltaram a encontrar-se, ambos estavam muito felizes, já eram namorados, no dia anterior, antes de se despedirem, o Aurélio pediu-lhe namoro, e ela aceitou imediatamente, dizendo-lhe que, só, não foi ela a pedir-lhe namoro, porque ele poderia não achar graça e não aceitar

Respondeu-lhe que ela era muito engraçada e que estava encantado com a sua postura, parecia que tinham sido feitos um para o outro, que o amor era louco, os olhos é que o sabiam ver, e que os seus, mal a viram, incendiaram-lhe o corpo, com um fogo, que não parava de arder, ficando mais suave, quando estava junto dela

O Aurélio não ficou sem resposta, a Jesuína acusou-o de terem sido os olhos dele a encantarem-na, de tal maneira, que tinha sido ela a ter de ir falar com ele, porque aquela ótima radiação lhe estava a dizer que não podia continuar a fazer sofrer aquele coração

Foi uma feliz decisão, retorquiu o Aurélio. Assim, não só, não perdi o meu, como ganhei o teu, para poder oferecer-te, o meu

Ambos ganhámos: sorriu, beijou-o, acrescentando, agora, temos dois corações, estamos muito mais fortes, quando um se cansar, há outro para o ajudar, para o massajar até recuperar, fazê-lo de novo sorrir, para que nenhum dos nossos corações se volte, só, a sentir-se

Sem que dessem pelo tempo passar, o sol caiu no mar, tiveram de, a casa, regressar. Mas, a separação não estava a ser fácil, quanto mais se beijavam, mais tempo, juntos, queriam ficar, para os beijos continuarem a saborear, parecendo não se quererem apartar.

Continua

 

16
Out25

O Império

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O Império   -    As teias que o Império teceu

135

Alguns dias depois, os vinte e cinco heróis foram homenageados na cooperativa, onde todos se podiam reunir, onde havia lugar para todos, fossem ou não sócios. Mas, como a cidade compareceu em peso, o espaço foi insuficiente. Assim, todos tiveram de ficar na rua, para ovacionarem os que tinham conseguido a paz 

Todos lhes estavam muito gratos pelos esforços, por terem colocado as suas vidas em perigo, para conseguirem a paz com o vizinho Reino, a Norte de Luanda, porque a boa vizinhança contribuí para uma vida melhor, para todos, oportunidades de negócios, de experiências, de convivência, de amizades

O Tico, como presidente da cooperativa, deu-lhes as boas vindas, pediu desculpa por a cooperativa não ter instalações onde todos coubessem, o que seria, sempre, impossível, porque nunca se tinha assistido a uma reunião de todos os habitantes da cidade, o que dizia bem da sua importância

A cidade quis mostrar que quem trabalha, para o bem da comunidade, merece ser reconhecido e incentivado a continuar a trabalhar, para o bem de todos

Por fim, o Governador aproveitou a reunião de tão grande multidão para lhes agradecer e   dizer, que continuava a contar com todos para defenderem a Colónia, cajo fosse agredida fosse por quem fosse

Quanto à missão, agradeceu, mais uma vez, a todos os que o acompanharam, e especialmente a quem muito bem a preparou, fazendo com que tivesse o êxito, que teve, porque a paz é um bem tão importante, que todos os povos devem fazer o que estiver ao seu alcance, para preservá-la

Foi uma festa muito emotiva, houve muitos abraços e beijos, as mulheres dos que integraram a missão ainda continuavam nervosas, como se o perigo não tivesse passado, o facto de terem passado muitas horas sem saberem o desfecho de tão arriscada missão, algumas admitindo que tinham perdido o companheiro, para sempre, marcou-as, senão, para o resto da vida, pelo menos, por muitos anos

Nos encontros há olhares que se cruzam, que parecem ficar presos aos olhares das outras pessoas, por mais que a pessoa queira desviar o olhar, os olhos não deixam

Foi o que aconteceu a um dos dois guias, que orientaram o grupo de emissários até à casa do Rei, eles conheciam aqueles trilhos, como a palma das suas mãos. Um deles, o Aurélio calhou a ficar defronte da Jesuína, uma das duas filhas do anterior Governador, que ainda era solteira: os seus olhos ficaram pregados na rapariga e nunca mais se conseguiram soltar

A rapariga, vendo que o rapaz não deixava de olhar para ela, dirigiu-se para junto dele, cumprimentou-o e deu-lhe os parabéns pelo brilhante trabalho, que tinha feito, segundo a tinham informado

O rapaz ficou um pouco envergonhado, agradeceu-lhe as amáveis palavras e aproveitou para lhe perguntar o nome, ao que ela correspondeu, acrescentando que era filha do Manuel

A conversa continuou durante todoo caminho para a casa da Jesuína, onde se separaram, tendo ficado combinado que se voltariam a encontrar no dia seguinte.

 Continua

 

09
Out25

O Império

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O Império   -   As teias que o Império teceu

134

Quando o sol se pôs, em Luanda, as mulheres e os filhos, dos homens, que tinham ido falar com o Rei, começaram a dirigir-se para o palácio presidencial, estavam preocupadas por os maridos, ainda não terem regressado. A Zulmira que, também, estava preocupada, tentou mostrar que estava calma, dizendo-lhes que o sol tinha acabado de desaparecer, era muito apertado, fazer tudo num só dia. Mas, sem local onde pernoitarem, tinham de voltar para casa, nem que tivessem de andar de noite

Não conseguiu acalmá-las, tinham receio que os maridos tivessem sido presos, ou muito pior, que tivessem sido todos mortos, porque eles tinham ido para um encontro suicida, sem primeiro o terem preparado, não sabendo como seriam recebidos, e o que pensava o Rei do seu pacto de amizade

A Zulmira bem tentava que não tirassem conclusões antes de se saber o que tinha acontecido. Mas, as outras mulheres questionavam-na sobre como é que saberiam se foram mortos ou presos. Respondeu-lhes que mais tarde ou mais cedo, alguma coisa se saberia, por agora, era aguardar com serenidade

Mas, à medida que as horas avançavam, todas foram ficando mais nervosas e desesperadas, algumas reagiam como se os maridos já tivessem sido mortos: chorando, dizendo que não tinham nada que ir para aquele massacre, que o culpado era o Governador

Entretanto, as crianças já tinham adormecido, o sono venceras, as mães, no seu desespero, no aflito choro, nem deram por falta do choro delas, nem das suas incómodas perguntas, às quais não sabiam como responder, sendo melhor assim: o descanso interrompeu-lhes a tristeza e a dor de verem as mães em tão grande aflição

As mulheres estavam, cada vez, mais convencidas de que os seus maridos não voltavam, a Zulmira, não o dizia. Mas, também, achava que já devia ser muito tarde, que já deveriam ter chegado, não conseguindo esconder a preocupação, fez de conta que não ouviu as que culpavam o seu marido, pelo sucedido

Quando, já nem a Zulmira acreditava que voltassem, ouviram barulho, abriram a porta e viram os seus maridos a arrastarem os pés de tão cansados, mas os seus olhos brilhavam como as estrelas, como que a anunciar que tinha sido uma missão muito bem cumprida

As mulheres correram para os seus braços, continuavam a chorar, mas de alegria, no breu da noite, todas queriam certificar-se se tinham par, não fosse algum não ter aguentado tão dolorosa jornada. Todos tinham regressado sãos e salvos, no meio dos beijos e abraços iam dizendo às mulheres, que tinha chegado a um acordo de paz, selado com um aperto de mão, entre todos

Esgotadas as energias criadas pela receção das esposas, os pais foram buscar energia às reservas, para levarem os filhos pequenos, para as suas casas. Exaustos, só queriam cair nas suas camas, para um merecido descanso de um longo dia de muitas emoções e não menos dores físicas.

Continua

 

02
Out25

O Império

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O Império  -   As teias que o Império teceu

133

Tiveram de andar a bom passo, para conseguirem chegar, antes do meio-dia, à casa do Rei, não tinham tempo a perder, queriam regressar a casa, até ao pôr-do-sol, foram muito bem recebidos, mas o Rei ficou admirado de terem ido tantos, o Governador desculpou-se com o facto de o reino dele, sempre, ter repelido os portugueses, com grande ferocidade e valentia

O Rei respondeu-lhe que esses tempos tinham acabado, desde que os portugueses tinham deixado de praticar a escravatura, a chaga que tanto sangrou a África. Levando milhões de africanos, à força, tratados como animais, transportados em condições indignas, que lhes custaram muitas vidas

Comprados, vendidos, desenraizados, deportados para o outro lado do Atlântico, para serem explorados, em condições iguais ou piores que os animais irracionais

Foram muitas mortes, vidas destroçadas, muitas famílias separadas, fome, sede, maus tratos, punições de toda a ordem, um sofrimento indiscritível, que esperava nunca mais voltasse 

O Governador e os seus companheiros ouviram-no com atenção e em silêncio, preocupados com o passar do tempo, receando terem de fazer o regresso de noite, o que era muito perigoso, devido aos animais perigosos, que se escondiam nas matas, que ladeavam a bicada por onde tinham de passar

Por fim, o Rei olhou ao seu redor, pareceu-lhe que todos estavam cansados, decidiu terminar, agradecendo-lhes a visita, acrescentando que os tinha recebido, para lhes propor que dali em diante vivessem em paz: Africanos e Europeus, Angolanos e Portugueses

O Governador, em nome dele e dos seus companheiros agradeceu-lhe a calorosa receção, disse-lhe que por eles a paz seria mantida, porque a boa vizinhança era muito importante, para o progresso e bem-estar dos povos

O encontro terminou com um aperto de mão, entre todos os presentes, para selar o pacto de amizade, que deve envolver todos os povos

Como já estavam muito atrasados, despediram-se do Rei e saíram em passo apressado de regresso a casa, com o sol a descer, também, acelerado, para dar lugar a mais uma noite recuperadora das canseiras do dia

Ainda tinham mais de uma dezena de quilómetros, para palmilharem, quando o sol desapareceu, tiveram de se adaptar, imediatamente, ao breu da noite, o que fez com que tivessem de caminhar, apenas, com o apalpar dos pés, sem a ajuda da visão, mais uma grande dificuldade, para vencerem a etapa

As hienas foram as primeiras a dar-lhes a boa noite, um grupo aí de umas dez, um cheiro insuportável e uns olhos muito vermelhos, não se meteram com eles. Mas, alguns tiveram medo, outros já estavam habituados a vê-las, mais adiante viram elefantes e impalas, nada de perigoso para o grupo

Exaustos, chegaram a Luanda por volta da meia-noite.

Continua

 

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