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29
Fev24

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

50

A última expedição brasileira a Angola foi em 1671, 200 mulatos nordestinos participaram na batalha conhecida como Pungo Adungo. Quando saiu de vez do território angolano, o Brasil deixou muito bem estabelecido por lá um forte comércio de fumo e cachaça, que conquistou os traficantes de escravos até à sua proibição

A cooperativa estava a tornar-se numa grande família, o casamento do Zacarias, filho da Miquelina e do Ezequiel, com a Milay, filha de um casal cooperante, cujo namoro já durava há muito tempo, fez com que as duas famílias ficassem muito felizes

Os jovens começavam a ocupar o lugar dos pais, tanto na produção como na gestão da cooperativa, o que fez com que mais jovens aderissem ao projeto

A Rosinha e o Januário continuavam a saborear a reforma, que lhes foi imposta pelos filhos, que não queriam que eles voltassem para os trabalhos do campo, dizendo-lhes, que aproveitassem bem o tempo, porque mais tarde ou mais cedo apareceriam os netos, acabando com a lua-de-mel dos avós: “ filhos criados, trabalhos dobrados”

Assim, passavam os dias calcorreando os sítios onde tinha sido felizes, onde se tinham encontrado, onde tudo tinha começado

Recordavam os tempos em que eram jovens, quando não tinham dores nas pernas e nas costas, não precisavam de andar constantemente a descansar, porque os anos pesam muito, fazendo com que se percam as forças

O Januário, desde que tinha estado doente, no Brasil, com as sazões, de vez em quando, voltava a ficar doente com as terríveis febres

Aquele tempo de férias, imposto pelos filhos, fez com que o Januário e a Rosinha se apercebessem de que estava na altura de se reformarem

A Rosinha não queria deixar de trabalhar. Mas sabia que o Januário precisava da sua ajuda e companhia, para o ajudar a ultrapassar as sazões, mesmo que ele insistisse que aquilo era passageiro

Assim, pediu aos filhos que falassem com os cooperantes, no sentido de marcarem a assembleia, para que todos apresentassem as suas ideias, para melhorarem a cooperação, os rendimentos, as habitações: a vida

A Leopoldina e o Jeremias deram-lhes a boa notícia de que iriam ser avós, não poderiam ter recebido melhor notícia, remédio, esperança, alegria, incentivo para afogarem as dores  e as febres do Januário

Foi de tal maneira, que esqueceram tudo o que os atormentava, e começaram fazer planos de como iriam ajudar a criar a neta ou neto

Foi tanta a felicidade, que pareciam ter rejuvenescido muitos anos, fazendo com que os futuros pais, também ficassem babados de felicidade, e fossem a correr, dar a notícia à restante família.

 

Continua

 

 

 

22
Fev24

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

49

Depois, foi a vez de pedirem à Rosinha e ao Januário, que contassem a história do seu encontro

O Januário não queria revelar as circunstâncias em que tinha conhecido a Rosinha, mas esta disse que não havia mal nenhum em revelarem o abrupto encontro deles

 A Rosinha começou por dizer que o mais difícil foi a comunicação, não conseguiam dizer um ao outro o que queriam, mas os gestos e o tato foram muito importantes, o insuportável foi viver, todos os dias, a pensar no sofrimento dos familiares, sem saberem o que lhe tinha acontecido

Mas não tinha maneira de lho dizer, só quando começaram a entender o que cada um queria, é que ela lhe fez sentir quão a sua família deveria estar a sofrer

Não foi fácil convencê-lo, porque ele estava com receio da reação da família dela, e não era caso para menos: tinha raptado a sua familiar, e isso era imperdoável, a não ser que a Rosinha o defendesse

Foi isso que o Januário tentou durante o tempo em que ela esteve afastada da família, só quando teve a certeza de que ela não deixaria que lhe fizessem mal, é que anuiu irem contatar aos familiares dela, o que tinha acontecido

A Rosinha não deixou de elogiar o marido, dizendo que desde a primeira hora do encontro, que ele a tratou com muito carinho, sempre preocupado com o bem-estar dela, agasalhando-a, dando-lhe as melhores e mais maduras frutas, tudo o que era melhor era para ela, e essa foi sempre a atitude dele durante todos os anos que levavam juntos

Na sua opinião, o Januário era uma pessoa exemplar, amigo de todos, fossem pobres ou ricos, pretos ou brancos, procurava que todos fossem respeitados, mulheres ou homens, crianças ou velhos

Nunca antes tinha conhecido ninguém que tanto se preocupasse com os outros, para ele, mulheres e homens deviam ter os mesmos direitos e as mesmas obrigações, o que ia contra os hábitos da sociedade dela, fazendo com que fosse olhado com desconfiança, por todos

 Os Sobas receavam que as ideias dele levassem as populações a revoltarem-se contra  as regras ancestrais, que tinham herdado dos seus antepassados, para regerem os seus povoados

Os filhos e a restante família ficaram muito orgulhosos da Rosinha e do Januário, muito contentes com tudo o que a Rosinha tinha dito sobre o relacionamento entre eles, e das ideias revolucionárias e humanitárias do Januário.

No fim, todos concordaram que um encontro, inesperado, entre uma africana e um europeu, dificilmente poderia ter ocorrido melhor

Os europeus invadiram a África, uma invasão é uma agressão.

Continua      

      

 

 

15
Fev24

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

 

48

A Miquelina continuou a contar a sua história, que tanto entusiasmava o filho e os sobrinhos

A explicar-lhes o cuidado que tinha de ter, para que os homens não descobrissem que era  mulher

Sempre vestida dos pés à cabeça, com os cabelos bem escondidos, tentado imitar os homens

Não deixou de lhes dizer que tinha sido um grande desafio, de Lisboa a Nagasaki, ida e volta, rodeada de homens, a quem ela tinha de convencer, que era do sexo deles

Tantos dias sem ter com quem partilhar os seus medos, as suas vitórias, as tristezas, as alegrias, coisas que nos ajudam a manter o equilíbrio

Mas, à medida que ia superando as adversidades, mais forte se sentia, o que fez com que perdesse o receio de que não seria capaz de cumprir todas as missões

Ombreou, lado a lado, com os homens em todas as tarefas, levando-a a decidir que, quando chegasse a Lisboa, iria revelar o seu sexo, sem receios, nem medos, porque já tinha provado, a todos, que não era nem mais, nem menos que eles

Acabou a sua exposição, dizendo-lhes que quando chegou a Lisboa foi falar com o Comandante, para lhe revelar o seu sexo. Este ficou estupefacto por não ter desconfiado de nada. Foi nessa altura que a convidou para fazer parte da tripulação da próxima viagem, e que tinha uma missão muito importante para ela

Pediu-lhe para que, enquanto preparavam a futura viagem, tentasse descobrir o que havia para evitar ou curar o escorbuto

Disse-lhes que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance, que tinha ouvido bruxos, curandeiros, cientistas, endireitas, barbeiros

Mas, infelizmente, não tinha conseguido encontrar ninguém que conhecesse as mesinhas para escorbuto, que tanto atormentava os marinheiros

Acrescentou que de tempos-a-tempos passava pelo cais, para saber quando tinha de se apresentar, para a próxima viagem

Que no dia em que se apresentou ia muito triste, por não ter conseguido cumprir a missão, mas o Comandante agradeceu-lhe o esforço e disse que talvez lhe tivesse pedido o impossível

  

 

Primeiro o filho, depois os sobrinhos, abraçaram-na e beijaram-na, dizendo-lhe que estavam muito orgulhosos da sua extraordinária história

Mas a audiência estava tão entusiasmada, queria que ela continuasse, pediu-lhe para  falar da segunda viagem

Vendo a grande curiosidade do filho e dos sobrinhos, decidiu continuar a contar as suas aventuras

Começou por lhes dizer que, como já tinha dito, o Comandante convidou-a para a viagem seguinte, incumbindo-a de tentar saber se havia cura para o escorbuto

Apesar de todos os esforços, não tinha conseguido descobrir nenhum remédio para curar o escorbuto

E, para tentar acabar com a curiosidade deles, acrescentou que tinha prometido, ao Comandante, ter um comportamento exemplar, visto que era a única mulher a bordo

Assim, mesmo depois de namorar com o Ezequiel, dentro do barco, tiveram de manter o comportamento, como se não fossem namorados, e não estivessem a planear deixar o barco, no porto de Luanda, onde esperavam encontrar o Januário, irmão do Ezequiel

O pedido de namoro, a aceitação do mesmo, e o planeamento da saída do barco tinham sido combinados em terra, quando ambos tiveram oportunidade de ir a terra

E deu por terminada a história das suas aventuras

A assistência sorriu, e disse-lhe que em disfarce, ela era uma mestra.

Continua

 

 

08
Fev24

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

47

A Rosinha e o Januário estavam a viver um período de lua-de-mel. Com os filhos criados, o negócio a correr bem, os filhos e o genro pediram-lhes para irem descansar uns dias, que eles substituíam-nos no trabalho

Os pais estavam hesitantes, por um lado desejavam e agradava-lhes a ideia dos filhos, mas não queriam que se sacrificassem por eles

Os três (Leopoldina, Roberto e Jeremias) decidiram debater o assunto, para tentarem que os pais aceitassem o pedido deles

O Jeremias foi o escolhido, para os convencer, por acharem que seria mais difícil dizerem não, ao genro

Disse-lhes que os três lhes pediam que aceitassem a sua sugestão, para descansarem uns dias, porque tinham estado muito tempo separados e precisavam de uns dias só para eles

Não tiveram, como dizer não, agradeceram-lhe, dizendo-lhe que era um bom filho, que os três eram os melhores filhos do mundo

O Jeremias não cabia em si de contentamento, por os ter convencido a descansarem uns dias.

O cunhado e a mulher agradeceram-lhe o empenho. Mas a Leopoldina não deixou de lhe dizer que ele era um bom genro e um marido muito querido

A Rosinha e o Januário não sabiam o que fazer com o tempo livre, que tinham, por não irem, para o campo, trabalhar

Decidiram voltar aos sítios onde se conheceram e viveram os primeiros tempos, juntos

À noite, quando a família se reunia, aproveitavam para contarem aos filhos a sua história

Pelo meio, o Januário falava da sua grande aventura de ter ido de Lisboa ao Japão, de todas as peripécias de tão grande viagem, as razões por que não quis voltar a Lisboa, o facto deter feito a viagem com a Miquelina, sem saber que era uma mulher

Os filhos e o sobrinho ouviam-nos com muita atenção, ávidos por saberem toda as suas histórias e também as da Miquelina e do Ezequiel

O que mais os intrigava era o fato da Miquelina ter feito a primeira viagem, de Lisboa ao Japão, disfarçada de homem, sem que ninguém tivesse desconfiado

O Zacarias queria que a mãe explicasse por que razão tinha feito uma viagem como homem

A mãe explicou-lhe que na primeira viagem, o Comandante da frota não admitia mulheres a bordo

Como queria muito fazer a viagem, decidiu arriscar, tentando fazer de tudo para que não descobrissem que não era homem, acrescentando que desempenhou tão bem o papel de homem, que nem o tio Januário, com quem teve de reparar um mastro, desconfiou que não fosse um homem.

 

Continua

 

 

01
Fev24

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

46

O Jeremias e a Leopoldina tinham começado a namorar, pouco depois do Januário ter  embarcado para o Brasil, planeavam casar-se assim que ele regressasse, mas ainda  não tinha tido coragem de lhe pedir a filha, em casamento

Muitos rapazes não se sentiam muito à vontade, para pedirem as namoradas em casamento, como se sabe, os pais são exigentes com os pretendentes das suas filhas, para eles, não há rapazes que mereçam as suas princesas

São capazes de todos os sacrifícios pela família: emigram, deixam a mulher e os filhos, vivem o sonho de lhes dar uma vida melhor, se necessário for, trabalham dia e noite

Quando lhes aparece, pela frente, um magarefe, que não conhecem de lado nenhum, ficam em pânico, não querendo de maneira nenhuma, abrir mão das suas filhas, que lhe deram tanto trabalho a criar

Temem que sejam mal tratadas, sabem que a violência doméstica é uma chaga incurável

Esquecem-se que, também, já tiveram de arranjar coragem para enfrentar os pais das suas namoradas, e alguns, nem sempre, as trataram bem, exigindo, depois, e bem, que as suas filhas sejam respeitadas

Então, vamos todos, primeiro, dar o exemplo, respeitando as nossas namoradas e esposas, para que as nossas filhas sejam tratadas como merecem: respeitadas e amadas

O Jeremias não teve outro remédio, senão arranjar coragem para pedir a mão da Leopoldina

O Januário gostou da maneira como o Jeremias lhe disse que ia tratar a sua filha, mas não deixou de lhe pedir que a tratasse com todo o amor e carinho, porque a filha, o filho e a esposa eram os seus tesouros

Mais uma vez, o Jeremias lhe garantiu que estivesse descansado, que ele respeitaria e amaria a Leopoldina, como se fosse a mais delicada flor que, para ele, também era o seu maior tesouro

Pediu-lhe que lhes desse autorização, para que dentro de um mês, começassem a viver juntos, como marido e mulher

O Januário respondeu-lhe, que por ele estavam autorizados. Mas que a Rosinha, também, tinha de autorizar. Assim, o melhor seria reunirem-se os quatro, para que todos dessem a sua opinião, para se ver se todos estavam de acordo

Na reunião familiar, em que também esteve presente o irmão da Leopoldina, todos concordaram, que a Leopoldina fosse viver com o Jeremias, e desejaram-lhes as maiores felicidades

A família, depois de anos atribulados, vivia tempos de muita felicidade, a Rosinha e o Januário já sonhavam com uma neta ou um neto

O desejo de quase todos os pais, que os filhos lhe deem essas perfumadas e bonitas flores.

Continua

 

 

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