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28
Dez23

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

41

Finalmente, depois de muitos dias a caminharem, o Januário, o cunhado e os guias chegaram ao Rio de Janeiro

Foram agradecer ao Governador, mais uma vez, a carta que lhe entregara, a preciosa ajuda dos guias, que tanto contribuíram para que cumprisse a missão

O Governador mostrou-se muito contente por, pelo menos, ter conseguido encontrar um familiar e levá-lo de regresso ao seu país, ao seio da sua família

Informou de que dentro de um mês teriam oportunidade de embarcar para Luanda

Foi uma viagem muito atribulada, enfrentaram grandes tempestades, recearam perder a vida, estavam já muito perto da costa africana

Ambos rezaram a todos os santinhos, para que conseguissem chegar a Luanda, tinham sofrido tanto, principalmente o cunhado do Januário que, como escravo, tinha sido submetido a muitas barbaridades

Felizmente, o barco conseguiu resistir à fúria das ondas que, à medida que se aproximavam da costa, diminuíram, fazendo com que tivessem chegado, sãos e salvos, a Luanda

Todas as palavras não chegam para descrever a alegria, que toda a família sentiu, quando o Januário, acompanhado do cunhado, apareceram de surpresa e bateram à porta

A Rosinha foi abrir, lavada de felicidade, sem conseguir parar de chorar, abraçaram-se e beijaram-se, durante alguns minutos

 Depois, não vendo os irmãos, nem o pai, a sua alegria toldou-se, não reconheceu o irmão

Este disse-lhe quem era, agarrou-se a ela, beijaram-se e choraram juntos, aproveitou para lhe segredar que o pai e o irmão tinham morrido, fazendo que continuassem a chorar por mais uns minutos

A Rosinha disse-lhe que não o tinha reconhecido, por ele estar tão magro e com a aparência de muito mais velho

Respondeu-lhe que tinha passado por muito sofrimento, que receou não aguentar, quanto mais voltar a vê-la

Felicitou-a pelo bom marido, que tinha arranjado: um homem, com os outros, preocupado

um branco, tão diferente dos que tratavam os escravos como se fossem animais, que só queriam ser muito ricos, para mandarem fazer casas grandes, para terem muitas mulheres

para as mais novas e bonitas escravas escolherem, para suas amantes

Enquanto a Rosinha continuava a falar com o irmão, à porta de casa, o Januário entrou em casa, surpreendeu os filhos, que se agarraram a ele, os três beijara-se e choraram, disseram-lhe que tiveram muito medo de não o voltarem a ver

Disse-lhes que, também, teve receio de não conseguir voltar, pediu-lhes para se alegrarem, porque tinha conseguido trazer um irmão da mãe, para os conhecer, que estava ansioso para os ver, mas ainda estava lá fora a matar saudades da irmã, em breve estaria ali, para os conhecer e abraçar.

 

Continua

 

 

21
Dez23

O Império

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O Império  -  As teias que o Império teceu

 

40

O Januário conseguiu recuperar da doença, que o fez ficar oito dias de cama

Continuou a falar com os escravos, que ainda não tinha falado, que trabalhavam naquela fazenda

Ao fim de mais cinco dias de esforços, teve a alegria de encontrar o irmão mais novo da Rosinha, que o informou que o pai e o irmão não tinham conseguido resistir a tantos maus tratos

Disse-lhe que era seu cunhado, vivia com a sua irmã mais nova, e que tinham uma menina e um menino muito bonitos,  que pretendia levá-lo, para Luanda

O escravo respondeu-lhe que não sabia se o seu patrão o libertaria, porque ele era o seu

dono

O cunhado disse-lhe que iria falar com ele, e que tinha quase a certeza que iriam os dois para Angola

Os olhos do irmão da Rosinha brilharam, e a língua disse que se isso acontecesse era um grande milagre

No dia seguinte, o Januário procurou-o, para lhe dar a boa notícia de estava livre e podia acompanhá-lo, para irem para o Rio de Janeiro, abraçaram-se e choraram

Quando se foram despedir do fazendeiro, este deu-lhe roupa lavada, porque a que tinha vestida estava muito rasgada e suja

Desejou-lhes boa sorte e bom regresso a casa, e que estva muito triste por o pai e o irmão terem morrido

Eles e os guias meteram-se a caminho, estavam muito longe do Rio de Janeiro, ainda iam demorar alguns dias a lá chegar

Com a chegada do novo Governador, João Fernandes Vieira, o Ezequiel deixou de fazer parte dos seus colaboradores

Passou a dedicar-se à agricultura, integrando uma grande equipa, da qual já faziam parte a mulher e a cunhada

Já produziam uma grande parte dos produtos alimentares que a cidade de Luanda consumia

Com a colaboração dele, a mulher e a cunhada ficavam com mais tempo livre, para a lida da casa e dar atenção aos filhos

Estava tudo a correr muito bem, tinham-se visto livres do negócio da escravatura, com o qual não concordavam

Mas, a falta de notícias do Januário, continuava a causar muita tristeza em toda a família, por que a incerteza mói mais que a morte

Não falavam do assunto, mas os rostos diziam bem as dores que iam dentro do corpos, ainda que os mais novos tudo fizessem para alegrar os mais velhos

Só restava esperar que os barcos que chegavam do Brasil trouxessem boas ou más notícias.

Continua.

 

14
Dez23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

39

Pela Bula Dum Diversas, de 18 de Junho de 1542, o papa Nicolau V autorizou o rei de Portugal, D. Afonso V, e seus sucessores, a conquistar e subjugar as terras dos “infiéis, pagãos e outros “inimigos de Cristo”, reduzir as suas pessoas à escravatura perpétua, e apropriar-se dos seus reinos, ducados, palácios reais, principados e outros domínios, possessões e bens, para si, seu uso e seus sucessores, os Reis de Portugal. (wikipédia)

O reinado africano de Salvador de Sá acabou em 1652. Seguiu-se João Fernandes Vieira, grande proprietário de engenhos de cana-de-açúcar, na Paraíba

Foi comandante da resistência aos holandeses, na Insurreição Pernambucana

Governou Angola entre 1651 e 1658. Vieira iniciou a série de expedições de Mulatos Nordestinos, que espalharam o terror na África Central, queimando as plantações dos nativos e escravizando angolanos e congoleses, inclusive de tribos aliadas dos Portugueses

Acabou excomungado pelos Jesuítas, por denunciar a imensa quantidade de escravos, que a Igreja mantinha em cativeiro

A Rosinha estava, de dia para dia, mais triste, martirizando-se por não ter impedido o Januário de ter ido para o Brasil. Também os filhos, a cunhada e o cunhado sofriam com o seu sofrimento

Já todos punham em dúvida o seu regresso, menos a Rosinha, que sempre acreditou que ele voltaria. Mas nem isso a ajudava a suportar a tão grande ausência do Januário

Já tinham passado quase dois anos, desde que tinha embarcado, para o Brasil, sem que tivesse dado notícias

O Januário continuava, no meio daqueles 2.000 escravos, a tentar encontrar os familiares da Rosinha

Só podia falar com eles, nas poucas pausas do trabalho. Estava esgotado, adoeceu, esteve oito dias de cama, o fazendeiro e os guias, que o acompanhavam estavam muito preocupados

O fazendeiro tinha receio de que o acusassem de o querer matar, dizia aos guias que não lhe tinha dado nada para ele adoecer, estes respondiam-lhe que acreditavam nele

Adoecer acontece a qualquer um, desejavam é que ele resistisse e melhorasse, para cumprirem a missão e voltarem para casa

Estavam arrependidos de o terem aconselhado a continuar, quando queria dar o trabalho por concluído e regressar a Luanda

Diziam para o fazendeiro que ele era forte e saudável, durante todo aquele tempo, nunca se queixara e estava sempre pronto para caminhar, mostrando vontade de acabar a sua missão quanto antes

Tinha muitas saudades da mulher e dos filhos, receava não voltar a vê-los, queria, quanto antes, voltar ao Rio de Janeiro, pedir ao Governador que lhe arranjasse lugar num barco com destino a Luanda

Tanto mar o separava do Continente Africano, estava orgulhoso de já ter estado em três Continentes.    

  Continua

 

07
Dez23

O Império

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O Império - As teias que o Império teceu

 

38

 

Em Luanda, todos estavam muito preocupados por não saberem nada do Januário, a Leopoldina e o Roberto bem viam a tristeza em que a mãe vivia

A ocupação na agricultura e o sucesso do seu novo projeto faziam com que por momentos esquecesse a ausência do marido

Também os filhos faziam de tudo para que a mãe não estivesse, sempre, a falar no regresso do pai, incentivando-a a produzir mais, associando-se a mais mulheres, para conseguirem abastecer a cidade

O que faria com que conseguissem viver só da agricultura e deixassem de vez o negócio da escravatura

Cada vez havia mais senhoras a quererem associar-se à Rosinha, não só por ela ser uma boa gestora, mas por cumprir com a sua palavra, pagando um preço justo e a tempo

Ela e a Miquelina geriam uma associação de muitas mulheres, que cultivavam vários alimentos, indispensáveis ao sustento da população da cidade de Luanda

Até o Governador, Salvador de Sá, pediu ao Ezequiel que transmitisse a sua admiração e gratidão à sua esposa, cunhada e restantes mulheres, pelo seu excelente trabalho e grande contributo para o desenvolvimento da agricultura, fazendo com que tivesse feito melhorar a vida das famílias das senhoras da associação das agricultoras

No Brasil, o Januário, quando já tinha perdido as esperanças de encontrar os familiares, um dos guias convenceu-o a visitarem mais umas fazendas, numa delas, o fazendeiro disse-lhe que tinha uma vaga ideia de terem trabalhado, na sua fazenda, os três escravos, que procurava

Mas, como não conhecia todos os escravos, que trabalhavam para ele, o melhor era irem falar com o que, ainda, estava vivo, para confirmarem se eram os que ele procurava

Eram mais de 2.000 escravos, que trabalhavam naquela fazenda. O que fez com que fossem precisos muitos dias em conversações, com muitos deles, para tentar encontrar os familiares da Rosinha

O Januário não fazia a mínima ideia das condições em que os escravos viviam e trabalhavam naqueles engenhos de açúcar, antes de chegar ao Brasil

Quis fazer algumas perguntas aos escravos, sobre as condições de trabalho, alimentação e descanso, mas os capatazes que os fazendeiros, em todas as fazendas, mandaram que o  acompanhasse, nunca permitiram que o fizesse.

 

Continua

 

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