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31
Ago23

O Império

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O Império- As teias que o Império teceu

24

Os irmãos continuavam a pôr a conversa em dia. O Ezequiel não queria ser ele, a acabar com a alegria do reencontro, esperou que fosse o irmão a perguntar-lhe pela mãe

Quando o Januário perguntou pela mãe, o Irmão disse-lhe que, infelizmente, a mãe já tinha falecido há seis meses

Januário chorou um pouco, dizendo que tinha tanta pena de que a mãe não tivesse conhecido a Rosinha, a Leopoldina e o Roberto, e foi assim que o Ezequiel soube os nomes da cunhada,  da sobrinha e do sobrinho

Todos tiveram de ficar, mais uma noite, na casa do casal, que acolheu o Ezequiel e a Miquelina, uma vez que a casa do Januário, nos arredores de Luanda, ainda ficava a uns quilómetros

O Januário lamentou o facto de a sua nova casa, em Luanda, ainda não estivesse acabada

Os anfitriões disseram-lhes que podiam ficar o tempo que quisessem, que estavam muito felizes por os terem conhecido e terem tido a oportunidade de os acolher

No dia seguinte, levantaram-se cedo, agradeceram muito o acolhimento, que tinham tido

Prometeram que, quando estivessem a viver em Luanda, voltariam para saberem como tinham passado, desejando-lhes muita felicidades

Os três fizeram-se ao caminho, que era longo. Chegaram, quase ao pôr-do-sol, ainda a tempo de verem a Rosinha, a filha, o filho, a sua mãe e as irmãs com a luz do sol

No dia seguinte, depois de terem tomado o pequeno-almoço, todos juntos, os irmãos  continuaram a pôr a conversa em dia, enquanto as cunhadas, também, tentavam conhecer-se e saber o que ambas pensavam, no futuro, fazer

O Januário falou ao irmão sobre o bom negócio da compra e venda de escravos, o que entusiasmou o Ezequiel

A Rosinha continuava contra o negócio da compra e venda de seres humanos, defendendo que deviam procurar outro meio de sobrevivência

A Miquelina, também, disse que não tinha ficado em Luanda, para viver à custa do sofrimento Humano

O Januário continuava a dizer, que só o fazia para tentar libertar o sogro e os cunhados

Elas disseram-lhes que não aceitariam, por muito tempo, esse comportamento, porque não podiam permitir, que os filhos, gerados nos seus úteros, fossem mercadorias, que pudessem ser vendidas e compradas, como se fossem um qualquer produto vendável

Comprometeram-se a tentar arranjar uma alternativa, mas não sabiam como

Interrogando-se, por que razão é tao difícil ganhar a vida honestamente?

Continua

 

 

 

 

 

    

24
Ago23

O Império

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O Império - As teias que o Império teceu

23

Chegou a hora de deixarem o barco e darem um salto para o desconhecido: a Cidade de Luanda

Depois do almoço, pelas 15 horas, a Miquelina e o Ezequiel puseram pé em terra firme, faltavam 3 horas para a noite se abater sobre a cidade

Mal tiveram tempo de dar uma vista de olhos pela cidade. De repente a escuridão engoliu a cidade e eles só tiveram tempo de se abrigar num recanto, debaixo de uma árvore

Não havia nada que lhes conseguisse roubar a magia da primeira noite, juntos, e dos primeiros beijos. Entre beijos e abraços, no romantismo da noite escura, as 12 horas passaram num abrir e fechar de olhos, quando menos esperavam, o sol apareceu a beijá-los com todo o seu esplendor

Levantaram-se do assento onde passaram a noite, abraçaram-se, beijaram-se e gritaram: “Viva o Amor”

Como tinham combinado, iniciaram o dia a pedir ajuda, tentaram contar a sua história a várias pessoas, uns ouviram-nos, outros não, ninguém se mostrou interessado em ajudá-los

Resolveram bater às portas, umas não se abriram, outras abriram-se, mas ninguém estava em condições ou os queria ajudar, estavam quase a desanimar, mas uma  abriu-se de par em par

Foi a de uma família, que conhecia um Januário, não sabiam se seria o irmão do Ezequiel, fosse ou não, tinham uma casa à disposição, por o tempo que fosse necessário

E, prometeram-lhes enviar um emissário a casa do Januário, para o informar de que tinha chegado, de Lisboa, um Ezequiel, que procurava um irmão, chamado Januário, e que o forasteiro e a sua companheira estavam hospedados na casa deles

Três dias depois, deu-se o reencontro dos irmãos, foi um  momento de muita alegria e emoção, que culminou com um forte abraço

De seguida, o Ezequiel apresentou-lhe a Miquelina, dizendo-lhe que era a sua companheira, que tinham vindo na carreira da Índia, e que ficaram em Lunda, para o verem e começarem uma nova vida, noutro Continente

A Miquelina aproveitou para dizer, ao Januário, que já o conhecia da anterior viagem, e que tinham reparado um mastro, juntos

Ele respondeu-lhe que até sair, em Luanda, não viu nenhuma mulher a bordo, mas ela conseguiu que ele se lembrasse do momento em que os dois estiveram a reparar o mastro, não deixou de lhe dizer, que estava muito bem disfarçada

Beijaram-se, disse-lhe que era muito bem-vinda e que estava muito contente, por ter uma linda cunhada.

Continua

 

 

17
Ago23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

22

O Januário, assim que soube que as naus tinham atracado ao cais de Luanda, foi passando, por lá, todos os dias

Mas, não conseguiu encontrar ninguém conhecido, nem ninguém que lhe desse as notícias  desejadas sobre a sua amada Lisboa

A notícia que todos queriam revelar, por ser uma coisa invulgar, era a de que abordo viajava uma mulher

Januário, também, ficou muito surpreendido e tentou que lhe descrevessem a mulher, para ver se faria algum sentido, a armada trazer uma mulher a bordo

Disseram-lhe que era uma mulher muito bonita, muito competente no seu trabalho de gerir os mantimentos e fazia equipa com um rapaz da sua idade, que se chamava Ezequiel

Quando falaram em Ezequiel, ainda, disse que era o nome do seu irmão, mas nunca pensou que fosse ele

Despediu-se, desejando-lhes boa viagem, e que continuaria a passar por ali, todos os dias, para ver se se cruzava com alguém conhecido, queria saber mais de Lisboa

Finalmente, as quatro naus chegaram a Luanda. A Miquelina e o Ezequiel tinham muito trabalho pela frente, para reabastecerem as naus, enquanto esse trabalho não estivesse feito, não teriam autorização para saírem

Não era fácil o reabastecimento, porque não havia a quantidade de produtos necessários, o que fazia com que tivessem de aproveitar tudo o que houvesse, incluindo as frutas e em especial as bananas, que eram, sempre, em grande quantidade

Ao décimo segundo dia, depois de chegarem a Luanda, a primeira parte do trabalho da Miquelina e do Ezequiel estava completo

As frutas e os vegetais só eram embarcados poucos dias antes das naus se fazerem ao mar, de novo

Se tudo correr como planeado, a Miquelina e o Ezequiel, em breve, abandonarão o barco e darão um salto para o desconhecido, sem saberem o que os esperará, faz parte da aventura

O Januário já estava cansado de todos os dias passar pelo cais, sem que conseguisse obter notícias relevantes

Mas, iria continuar, todo os dias, os seus esforços, enquanto os barcos se mantivessem atracados, para saber mais de Lisboa, de quem tinha tantas saudades, principalmente da mãe e do irmão

A procura de uma vida melhor leva-nos, tantas vezes, a perder tanta coisa: o não acompanhamento do crescimento dos filhos, a separação do casal, o convívio com os outros familiares e amigos, um clima a que estamos habituados, o local onde nascemos, que é tão importante, pelo simbolismo, que carrega.

Em certos casos, não sei se compensam tantos sacrifícios, para tão poucos proveitos

A emigração da última metade do século passado levou-nos a aceitar os duros trabalhos que outros não queriam, era uma emigração clandestina, que fazia com que aceitássemos as condições impostas pelos patrões

Hoje, felizmente é diferente, não deixando de ser um desenraizamento e um grande empobrecimento, para o país que, se empenha na formação dos jovens, os vê partir à procura de melhores condições de vida, contribuindo para o enriquecimento de outros países.

Continua

 

 

 

10
Ago23

O Império

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O Império  -  As Teias que o Império Teceu

 

21

O Comandante, que a tinha em muita consideração, disse que podiam sair os dois, desde que deixassem o trabalho feito, não se demorassem e não se afastassem muito do cais, para evitarem as ruas mais perigosas

Estava ultrapassada uma das dificuldades: a saída de ambos, o Comandante tinha caído na armadilha, que a Miquelina lhe atirara, com muita naturalidade, dando a entender que  trocaria a visita a Luanda, que muito gostava de ver, pela segurança da sua vida

Tinha de transmitir, ao Ezequiel, a decisão do Comandante, lembrando-lhe que não poderiam  dar a entender que estavam a abandonar o navio. Assim, só conseguiriam levar o que vestissem e pouco mais

À medida que se aproximava a chegada a Luanda, aumentava o seu nervosismo, era um grande salto para o desconhecido

Para piorar o ambiente, o setor à sua responsabilidade dava os sinais habituais: falta de alimentos frescos, a água cheia de bichos, o que estava a causar o aparecimento de mais marinheiros com escorbuto

Os que mais sofriam eram os niquentos, que não comiam de tudo, que ao fim de tanto tempo no mar, já não conseguiam comer o que restava

Tudo o que estava a acontecer: falta de apetite, água com bichos, o mal de Luanda (escorbuto), só poderia indicar que estavam muito perto de Luanda

O Ezequiel e a Miquelina esforçavam-se para que a comida fosse o melhor possível, mas ninguém consegue fazer omeletas sem ovos

Miquelina passava os dias a pensar na saída, em Luanda, na melhor maneira de saírem, com a maior quantidade de roupa, possível, sem que dessem nas vistas

Enquanto a Miquelina andava a matutar como seria o futuro, o Ezequiel passava os dias tranquilo, porque ela, ainda não tinha tido oportunidade de lhe dizer que o Comandante tinha autorizado que saíssem juntos

Sem saber quantos dias faltariam para chegarem a Luanda, lá lhe conseguiu dizer que sairiam juntos, sem tempo para falar de pormenores

Quando começaram a avistar terra, gerou-se uma grande euforia como, sempre, acontecia

A Miquelina aproveitou a oportunidade para dizer ao Ezequiel como deveria proceder quando abandonassem o navio

A pouco-e-pouco as naus foram-se aproximando do cais de Luanda, e a alegria a todos contagiou, esperava-os o trabalho do reabastecimento e o passeio à cidade.

Continua

 

  

03
Ago23

O Império

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O Império – As teias que o Império teceu

20

Reparadas as naus, fizeram-se, de novo, ao mar, as condições estavam favoráveis, durante alguns dias não tiveram problemas. Mas, infelizmente, foi sol de pouca dura

Cinco dias depois de saírem de Angra do Heroísmo, nos Açores, voltaram a enfrentar ventos ciclónicos, numa manobra errada, um golpe de vento partiu uma nau ao meio, afundou-se em pouco tempo, dez dos trinta tripulantes morreram

Não tardaram as acusações, as superstições, as tentativas de encontrarem bodes expiatórios, alguém a quem culpar, por estarem com tanto azar

Uns culpavam o Comandante por se terem feito ao mar numa sexta-feira dia 13, um dia de azar, que deveria ter sido evitado a todo o custo

Outros culparam a Miquelina, dizendo que todos sabiam que nunca tinham sido admitidas mulheres abordo, por causa dos azares, que dão, quando andam com a menstruação

O Comandante defendeu a Miquelina, dizendo-lhes que eram tudo superstições e que contra os elementos naturais, nenhum humano os tinha conseguido vencer

Queria, ainda, dizer-lhes que ela tinha feito a viagem anterior, a qual tinha decorrido muito bem, o que provava, que as mulheres não contribuíam para os azares, mesmo quando andam com a menstruação, porque tudo o que diziam sobre as influências negativas não passavam de mitos, e superstições

Mas, alguns marinheiros estavam tão exaltados, que não ouviam ninguém, nem o Capitão

Para debelar a rebelião, o Comandante mandou atar, dois dos mais contestatários, ao mastro do navio, durante 24 horas, para se acalmarem

Estavam todos muito transtornados, a perda de dez homens e uma nau foi mais um rude golpe, para todos, numa viagem, que desde o primeiro dia, parecia estar excomungada

Cumprida a pena, decretada pelo comandante, a vida, a bordo das naus, voltou à normalidade

Depois da tempestade veio a bonança, até Luanda não enfrentaram mais nenhuma tempestade

A Miquelina continuava preocupada com a aventura de saírem em Luanda, mas já não havia alternativa, tinha-se comprometido a acompanhar o Ezequiel, e nunca voltaria com a sua palavra atrás

O melhor era planear a saída, que seria bem complicada, por fazerem equipa não podiam sair os dois, no mesmo dia

Tinham de gizar um plano, que não levasse o Comandante a descobrir ou suspeitar das suas intenções

Miquelina disse ao Comandante que gostava muito de ir a terra, em Lunada, mas receava ir sozinha, se calhar o melhor era não ir, para não arriscar a vida.

Continua

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