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29
Jan21

Vidas (5)

cheia

Continuação (5)

Abriram a porta da casa de entrada, a mãe chamou-os para irem ver a menina, ainda não tinha nome, ficaram encantados e fizeram-lhe uma festinha na cara

No dia seguinte a professora perguntou-lhe por que razão tinha faltado à Escola, ele respondeu: “ nasceu a minha mana”

Francisco, como de costume, ajustou uma empreitada para fazerem a ceifa, da seara, dum vizinho. O ajuste era uma negociação em que discutiam em quantos dias a seara era ceifada

Fechado o contrato, os ceifeiros podiam até fazer o trabalho em muito menos dias, desde que o trabalho ficasse bem feito

No início da ceifa, a família mudava-se para o local da ceifa, onde passavam as vinte e quaro horas, com exceção do José, enquanto não entrasse em férias de verão

Alice, quinze dias após o parto, ceifava dias inteiros, ao lado do marido, por vezes, sob uma temperatura de quarenta graus centígrados

Chapéu na cabeça, lenço a tapar o rosto, por causa do pó e do sol, só se lhe viam o nariz e os olhos, cinco canudos de cana, numa das mãos, não fosse a foice cortar-lhes os dedos

Não havia tempo para fazer comida, ela e o marido comiam pão com azeitonas ou toucinho, para os filhos sopas de leite, tinham uma cabra, que o Francisco todos os dias ordenhava

De vez em quando fazia gaspacho para todos, porque era fácil e rápido. Sempre amamentou os filhos até aos dois anos ou mais, o que era muito bom para a bebé, tinha sempre a refeição pronta

Foi o primeiro e único ano, que o José foi da ceifa para a Escola, e vice-versa. Debaixo dum sol abrasador, sem sombras, tinham um grande guarda-sol, onde os filhos e eles se abrigavam do sol

À tardinha, o pai preparava a cama, cada dia em sítio diferente, porque todos os dias ceifavam uma boa extensão, colocava uma boa camada de trigo ceifado em cima do restolho e em cima as mantas

De manhã atava o trigo em molhos, fazia uma meda de 5 ou 6 molhos, e assim ficavam até que o dono os mandasse carregar para a eira

Em noites de luar, chegavam a ceifar toda a noite, aproveitando para descansar, nas horas de maior calor. Às vezes, o José acordava, olhava para o lado, e só estavam os irmãos

 

Na Escola, todos os dias aprendia novas coisas, a professora não lhes dava descanso, queria que quando fossem a São Pedro de Solis, fazer a passagem da primeira classe para a segunda, não a deixassem ficar mal

Um dia, antes do intervalo da manhã, uma rapariga levantou-se e pediu para ir lá fora, o que significava que queria fazer as necessidades, no campo atrás da Escola, a professora disse que estava quase na hora do intervalo. Mas, a rapariga que já estava muito aflita, mesmo sentada regou a sala de aula. A professora só disse: “ podem sair para intervalo”

Rapazes e raparigas, nenhuns usavam cuecas, eles vestiam uns calções ou umas calças, elas um vestido de chita 

A meio do ano letivo, vieram de outra Escola, para a Escola do José, dois irmãos, que tinham fama de não serem muito educados. Um dia a professora deu-lhes umas reguadas, e eles, como as janelas eram baixas e estavam abertas, saltaram-nas e correram a gritarem que iam dizer à mãe deles, e não voltaram para  aquela Escola

Em junho ou julho fizeram, em São Pedro de Solis, a passagem da primeira para a segunda classe, todos passaram. Estava terminado o ano letivo

A Escola que nasceu no Monte do Lobato, em 1951, foi transferida para o Monte da Corcha, no início do ano letivo de 1952/3, para uma casa contígua à do José.

 

Continua

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28
Jan21

Vidas (4)

cheia

Continuação   (4)  

 

José agarrou na arreata da burra e meteu-se ao caminho, nunca mais se lembrou do aviso do moleiro

Os seus pensamentos estavam embrenhados no que tinha lido na carta do pai. Perguntava a si mesmo quantos quilómetros seriam do seu Monte a Beja, quantos dias teria andado até lá chegar, tudo perguntas que teriam de esperar, e era preciso que tivesse coragem para as fazer

Quando deu por conta já o saco tinha caído. Como colocar o saco em cima da burra, se ela era mais alta que ele, e ainda tinha de elevar os quinze quilos!

Procurou uma rocha, onde colocou o saco, encostou a burra à rocha, pegou no saco para o pôr em cima dela, mas esta desviou-se: uma, duas, três vezes, só à quarta tentativa é que conseguiu colocar o saco em cima da burra. Estava exausto. Até chegar a casa, foi sempre com atenção, quando o saco ia mais para um lado, lá ia ele endireita-lo

A mãe estava preocupada com a demora. Mas assim que chegou explicou-lhe o que se tinha passado. Estava tão cansado que foi imediatamente para a cama

A mãe ainda peneirou a farinha nessa noite. Queria amassar bem cedo, já tinha ido pedir fermento a uma vizinha

No outro dia, quando chegou da Escola, já havia pão quente, o cheiro tinha perfumado a casa, parecia que tinha começado uma nova era

Alice estava grávida pela terceira vez. Tinha receio que o marido não viesse antes do parto. Desejava que fosse uma menina, para ajudar na lida da casa. Já tinha dito muitas vezes, ao José, que se fosse uma rapariga já a poderia ajudar. Assim, com dois rapazes, tinha de fazer a lida da casa sozinha

 

A Escola recebeu o equipamento escolar em Fevereiro ou março, transportado numa carroça da Camara Municipal de Mértola, com dois funcionários, puxada por um macho

Os funcionários descarregaram tudo e colocaram nos devidos lugares. No topo norte o estrado, com a cadeira e secretária da professora em cima, à esquerda do lugar da professora, na parede o quadro preto, por cima o cruxifixo e o quadro com a fotografia de Salazar, ao lado do grande quadro preto o mapa de Portugal, em cima da secretária um globo, junto do quadro uma caixa de giz e um apagador, no resto da sala colocaram as carteiras com os tinteiros brancos embutidos e as cadeiras. Foi um dia inesquecível!

A professora era um pouco austera. Quando estava a ensinar a fazer os números disse, ao José, que o nove era uma bolinha com um pauzinho do lado direito, mas ele colocava sempre o pauzinho do lado esquerdo, até que ela deu-lhe uma bofetada, e ele nunca mais colocou o pauzinho no lado esquerdo

O José era canhoto, mas o pai atalhou-lhe o braço esquerdo ao pescoço. A mãe só lhe contou quando ele já tinha 50 anos, depois de o ouvir tantas vezes dizer, por que razão não era capaz de fazer um risco direito, nem com a régua e o esquadro, quando lhe encostava o lápis, cada um ia para seu lado, não consegue fixar um caminho, nem que passe por lá cem vezes, ela não resistiu e contou-lhe o segredo

Todo o outono e inverno na escola, de manhã e de tarde, não tinha tempo para brincar com o irmão, como fazia dantes. Com seixos brancos imaginavam grandes rebanhos de ovelhas, onde não faltavam os carneiros, os cães, os borregos e o pastor

Nas manhãs frias de inverno, quando a superfície do ribeiro, que rodeava acourela, congelava, descalços, mal agasalhados retiravam, os dois, com muito cuidado, a maior superfície que conseguiam e colocavam-na ao sol, chamando-lhe: tirar espelhos  

Na margem do ribeiro havia uma laje, muito a pique e muito lisinha, utilizavam-na como escorrega. Mas para não estragarem as calças, arrancavam duas esteva e sentavam em cima delas, deslizavam pela laje abaixo, atingindo uma boa velocidade

 

O pai do José regressou, ainda antes de Maio, mas não tem registo de reencontro entre ele e a mãe, se calhar estava a dormir. De manhã quando acordou para ir para a Escola, o pai apertou-o contra ele e beijou-o. Não se esqueceu de perguntar como iam os estudos

A mãe, prestes a fazer 25 anos, no primeiro de maio, ainda que na cédula esteja escrito 12, como acontece com ele e o irmão, em que ele nasceu a 5 e está 15, já o irmão nasceu a 17 de Julho e está 10 de setembro, estava quase no fim da gravidez

Numa radiosa manhã de Maio, quando se preparava para ir para a Escola, a mãe disse-lhe que não podia ir, porque o pai já tinha saído para o trabalho, e ele e o irmão tinham de ir a casa da vizinha, dizer-lhe que viesse imediatamente, e que ficassem lá a brincar com a filha dela

Entretiveram-se na brincadeira, nem deram por o tempo passar, quando ela regressou e lhes disse: “ já podem ir para casa, já têm lá uma mana”, correram para casa.

   Continua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

27
Jan21

Vidas! (3)

cheia

Continuação    (3)

 

No ano em que o filho mais velho fez seis anos, num Monte a dois quilómetros, começou a funcionar um posto escolar

Um casal cedeu uma casa, onde funcionava a Escola e vivia a professora

O equipamento da sala de aula eram meia dúzia de cadeiras e uma mesa

Estávamos em outubro de 1951

Só a quarta professora, das que visitaram o local, aceitou trabalhar naquelas condições! 

Eram conhecidas por professoras regentes, só tinham a quarta classe e um pequeno estágio

O País estava envergonhado por ter quase cem por cento de analfabetos

Com o fim da segunda guerra mundial, o mundo deu um salto tecnológico, Portugal foi confrontado e muito criticado por ter tantos analfabetos

Era preciso criar postos escolares, mesmo em casas particulares, como a que funcionava na casa onde ele nasceu

Estas professoras não podiam casar sem a autorização do Ministro da educação

Dedicavam-se muito à sua profissão

Queriam que os seus alunos, quando fossem, às Escolas das professoras oficiais, fazer as passagens da primeira para a segunda ou da segunda pra a terceira classes, brilhassem, querendo o mesmo nos exames da terceira para a quarta classe e no exame da quarta classe, que constava de duas partes: primeiro a prova escrita, mais tarde a prova oral, normalmente, tinham lugar na sede de Concelho

A primeira professora, do José, era uma rapariga muito determinada. Quando aceitou criar aquela Escola, fê-lo com o propósito de tudo fazer para que os pais compreendessem, o quanto era importante mandarem os filhos à Escola

Não foi fácil, estavam habituados a contar com o seu trabalho para a casa, ou ajustavam-nos para trabalharem para os grandes latifundiários

Passado um mês do início das aulas, vendo que não aparecia mais ninguém, não chegavam a uma dezena, uma manhã, decidiu ir com eles a um Monte, não muito longe

Lá foi ela, com os alunos atrás, parecia uma galinha com os pintos. No caminho, encontrou um homem com o filho a trabalharem na horta

Depois de os cumprimentar, perguntou ao homem se não sabia que era obrigatório mandar o filho à Escola, e ele respondeu: “se lhe der de comer”

Seguiram o seu caminho, para o Monte, onde, junto das mulheres tentou fazer-lhes compreender quanto era importante mandarem os filhos à Escola

 

Uma manhã, pouco depois do José sair para a Escola, um homem bateu à porta, perguntou se era a Alice, entregou-lhe uma carta, dizendo que o marido lhe tinha pedido para lhe entregar a carta, e que ele estava bem.

Alice virou e revirou a carta, tinha três selos de lacre no verso, com o formato e a face duma moeda, para que ninguém a abrisse, era muito usual, quase sempre, por exigência do portador

Abriu o envelope, retirou a carta e duas notas, uma de vinte e outra de cinquenta escudos, concentrou-se na carta, sentiu uma grande tristeza por não saber ler, depois alegrou-se por o filho já conseguir ler, não precisava de ir pelo Monte, perguntar quem é que sabia ler, expor a terceiros as palavras intimas, que com certeza o marido lhes tinha dedicado, a ela e aos filhos

Admirou a letra, desenhada, do Francisco, tão bonita! E ela sem saber o que dizia, pensou no que teria passado até arranjar trabalho

Por um lado, gostava que o homem tivesse chegado ao mesmo tempo do José, para ele lhe ler a carta e saber, imediatamente, o que estava ali escrito

Por outro lado, estava tão feliz por ter passado o dia a mexer naquele papel, que o Francisco tinha escrito, tinha o cheiro dele, apertou-o ao peito, sentiu as suas impressões digitais

Quando o filho chegou, correu para ele, beijou-o e disse-lhe que o pai tinha mandado uma carta, por um homem que tinha estado a trabalhar com ele, que lhe bateu à porta, mal ele tinha saído

Pediu-lhe se a conseguia ler, porque estava tão ansiosa por saber o que dizia.  José ainda soletrava as letras, mas conseguiu lê-la, toda. Dizia que esperava estivessem todos bem.

 Encontrara durante os muitos dias que levou a percorrer quase todo o Distrito, pessoas que lhe deram de comer e arranjaram onde dormir. Em cada Monte, ia pergunta se sabiam de alguém que precisasse de um trabalhador.

Quando se aproximava a noite, as pessoas perguntavam-lhe onde é que ia dormir, e ele aproveitava para lhes pedir se não tinham um palheiro onde pudesse ficar. Não só lhe arranjavam onde dormir, como acabavam por lhe dar a ceia. No dia seguinte continuava a sua caminhada, alguns, ainda lhe davam um bocado de pão e umas azeitonas, para comer pelo caminho, até encontrar nova povoação.

Ao chegar perto de Beja, encontrou um Senhor que tinha um olival para limpar. Assim que acabasse o trabalho, que faria em poucos dias, voltaria, porque queria ajustar uma empreitada para a ceifa, como fazia todos os anos.

Assim que acabou de ler a carta, a mãe mostro-lhe as duas notas, pedindo-lhe que levasse a nota de cinquenta escudos, que fosse, com a burra, comprar uma arroba de farinha de trigo, ao moinho do Pizão, que ficava na margem esquerda da ribeira do Vascão. 

Disse-lhe para não se demorar, porque ainda queria peneirar a farinha, para no dia seguinte cozer pão, que há tanto tempo, por todos era desejado

O José montou-se na burra e dirigiu-se ao moinho, que ficava a uns três quilómetros. O moleiro era um senhor já de idade. Pesou a farinha, colocou o saco em cima da burra e avisou-o de que o saco podia cair, porque não o podia amarrar, sem uma albarda.

Continua  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

26
Jan21

Vidas! (2)

cheia

Continuação     (2)

Francisco tinha cumprido o Serviço Militar, estivera na fronteira do Alentejo, aquando da guerra civil de Espanha. Num dos exercícios, enganaram-se nas coordenadas, quando dispararam o canhão racharam uma oliveira centenária, que o Exército teve de pagar. Tinha comprado, em Évora, um livro de história, para ler nos tempos livres

 Como impedido, dum Capitão, tinha estado em Mafra, enquanto o oficial frequentou um curso de metralhadoras pesadas

Costumava dizer: “que na tropa, nem bom cavalo, nem bom cavaleiro”

Quando saiu da tropa, foi para São Miguel do Pinheiro, para aprender o ofício de ferreiro e ferrador. Sonhava com a possibilidade de abrir uma oficina de ferreiro e ferrador

Era o homem dos sete ofícios. Sabia fazer todos os trabalhos do campo: lavrar, semear, tirar a cortiça, limpar as árvores, para além de fazer cestos e cadeiras

Trabalhou na construção do aeroporto de Faro, e em estradas. Era um especialista a dinamítar as rochas, por isso era muito requisitado para trabalhar  na construção de estradas

Queria, acima de tudo, quando se casasse, um trabalho, que lhe permitisse estar por perto da mulher e dos filhos

 

Quatro anos depois do nascimento do José, Alice teve o segundo filho

Enquanto o bebé dormia, aproveitava para adiantar o trabalho fora de casa

Numa tarde, aproveitou para ir mondar, atrás da casa, pediu ao José para quando o irmão acordasse, que a chamasse

Mas, em vez de a chamar, começou a embala-lo para que se calasse, quanto mais ele chorava, mais ele baloiçava o berço, até que o virou por cima do irmão

Muito atrapalhado, foi chamar a mãe. Felizmente, como tinha muita roupa, o bebé não sofreu nada, a não ser o susto de ter ficado debaixo daquilo tudo

No intervalo das aulas, juntava-se com os alunos, querendo entrar nas brincadeiras deles. Uma vez, andaram com ele à roda até cair de tonto

De outra vez estava à porta do prédio, quando viu, um homem mascarado com cortiça queimada e uns grandes dentes de cana, ao fundo da rua, a caminhar na sua direção, fez-lhe sinal para não dizer nada. Quando o mascarado entrou na sala de aula, que tinha a porta aberta, José entrou a atrás dele, e viu alunos e alunas a saltarem para cima das carteiras

A professora tirou-lhe a primeira fotografia, já devia ter dois ou três anos

Viviam com muitas dificuldades, só tinham o que conseguiam arrancar da terra. Uma terra muito pobre, nas fraldas da serra do Caldeirão

Uma terra ótima para o montado de sobreiros, onde é tirada a melhor cortiça do mundo

Tirada, no mínimo, de 9 em 9 anos, são precisos muitos sobreiros, para conseguir uma boa renumeração

 Cada vez com mais dificuldades, desesperados, resolveram ir para o Concelho de Mértola, onde o pai do Francisco tinha umas casas, duas cercas, uma horta e uma courela 

 Mas, a miséria e a fome continuaram na mesma ou ainda pior. Os filhos andaram descalços até irem para a Escola, num clima, com grandes amplitudes térmicas

as solas dos pés eram tão grossas como as solas das botas, tendo de se adaptarem à geada do rigoroso inverno frio e ao calor demasiado do verão

Francisco não desistia do seu sonho. Como a casa tinha uma porta grande para a via pública, decidiu abrir a oficina de ferreiro e ferrador

Comprou um fole de ferreiro, uma bigorna, tenazes para segurar o ferro em brasa, enquanto moldava as ferraduras, carvão de pedra ……..

Mas a clientela era pouca, de longe-em-longe, uma besta para ferrar, uma ponta de charrua par afiar

Acabou por ter de fechar a oficina, não ganhou para o pagamento do equipamento

 Um ano, em fevereiro, desesperado, sem trabalho, despois do almoço, agarrou numa saca e uma manta velha, despediu-se e foi à procura de trabalho

 Alice ficou com os filhos pendurados às saias a pedirem de comer, só tinha couves, que era o que havia na horta, e que comiam todos os dias

O filho mais velho farto das couves, foi muitas noites para a cama, sem comer, dizendo que não tinha fome, porque não queria magoar a mãe

Ela sabia que ele já não queria ou não conseguia comer todos os dias, às duas refeições, couves. Mas não dizia nada

De vez em quando pedia emprestado, um pão, às vizinhas. Quando cozesse pagava-os

Passava as noites a fiar linho, para ver se ganhava alguma coisa, mas era um dos trabalhos mais mal pagos

Às vezes, chamavam-na para ir mondar, às tardes, pagas a 4 escudos cada, mesmo assim, muito poucas

Naquela triste miséria, também a preocupava o facto de nunca mais ter sabido nada do marido

Nem se estava vivo, se tinha arranjado trabalho, como teria vivido até arranjar trabalho

Já tinham passado quase  dois meses, e, ele sem dar novas, nem notícias.

Continua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

25
Jan21

Vidas!

cheia

Vidas!                (1)

 

Recusou-se a nascer antes do fim da segunda guerra mundial

Os pais muito pobres, num tempo em que era tudo racionado e com senhas

Tinham-se juntado no outono de 1944

Era o que a maioria, dos casais, fazia

Alugaram parte de uma casa, onde também funcionava a Escola Primária e vivia a professora

Ele com 29 e ela com 17 anos, há muito que andava de olho nela

Muito bonita, com uns longos cabelos até ao fundo das costas

Conhecera, porque o pai dela alugara uma casa e uma courela, no monte dele

Para onde os irmãos iam com as ovelhas, durante uma temporada

E, ela, de vez em quando, ia lá dar-lhes assistência

Teve um parto difícil, uma grande hemorragia

Um curioso, ainda, por cima, receitou-lhe uma sangria

Era assim, naquele tempo, sem médico nem parteira, pelo menos, para os mais pobres

Eram as outras mulheres quem lhes acudia

O pai dela, com medo de perder a segunda filha e o primeiro neto, levou-os para casa dele

Para a mãe e as irmãs tomarem conta deles

Não havia escolas! As Mestras ensinavam a ler, escrever e fazer contas

Numa das saídas de Almodôvar, está uma placa a indicar o Monte das Mestras

Foi só um dia a casa da Mestra, para aprender a ler

Não pode ir mais, porque tinha de tomar conta dos irmãos: 7 ( no mesmo mês em que ela teve o segundo filho, a mãe teve o nono)

Sofreu muito por não saber ler nem escrever, dizendo que não sabia uma letra do tamanho de um burro

Naquele tempo diziam que as mulheres não precisavam de saber ler nem escrever, tinham era de saber coser meias

O marido, o mais novo de quatro rapazes, sabia muito bem ler, escrever e fazer contas

Aprendera com uma Mestra, à noite, depois dos trabalhos no campo

Aos homens só era permitido que trabalhassem no campo

Nenhuma mãe queria ver um filho a lavar a loiça, as fraldas, o chão……………

As raparigas podiam trabalhar em casa, no campo, que ninguém ficava incomodado

Ao longo dos séculos, as mulheres têm sido discriminadas, contra isso, muito têm lutado.

Continua

 

 

21
Jan21

Estrela

cheia

A luz

 

Estrela florescente

Que me acompanhas, sempre

Em qualquer vertente

No sorriso da mente

Como se fosses um espelho, transparente

Um fogo incandescente

Que me consome infinitamente

És a luz que me alomeia eternamente

Nos momentos em que a terra não sente

Tu estás, sempre, presente

Tu és Norte, és Sul, és Poente

Por mim enfrentas toda a gente

Tu és fruto, tu és semente

Pão, amor ardente

Flor, perfume quente

Quem ama não mente

Juntos construiremos o futuro e o presente

Minha estrela florescente.

José Silva Costa

 

 

 

 

 

19
Jan21

À moda antiga

cheia

Como antigamente

 

Sorrir nas esquinas do medo

Não te poder beijar tão cedo

Quando te conto o segredo!

Abrir os braços e apertar-te com um dedo

Vamos contar as estrelas para afastar o degredo

Amanhã continuamos com este enredo

Namorar à distância, cada um no seu prédio

Com uma rua a separar-nos, como remédio

Só os nossos olhares se podem beijar e abraçar

Estes tempos vão passar

Depois voltaremos a andar agarradinhos

Segredar sozinhos

Sem que nos possam acusar

Das recomendações não respeitar

Vamos, à varanda, continuar a namorar

Como antiguamente, sem nos podermos tocar

As vizinhas, sempre, as espreitar

Para depois irem contar, coscuvilhar

Como se elas não tivessem feito o mesmo!

Tem sido assim ao longo dos séculos

Com mais ou menos liberdade

Com mais ou menos igualdade

Com mais ou menos roupa

Numa ou noutra era mais louca

Porque o amor são borboletas a voar

Que não nos deixam sossegar

Que nos fazem faltar o ar

E, do primeiro beijo, nem falar!

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15
Jan21

Em casa

cheia

Confinamento

 

Novamente a negra paralisante clausura

Como planear a vida, se cada dia é uma aventura

Cada vez está mais difícil viver em constante rutura

Há quase um ano nesta cercadura

Sem fim à vista, sem saber quanto mais dura

Tanto tormento, tanta agrura

Para uma vida de tão curta dura

Sem que ninguém nos possa acompanhar à sepultura

Só nos resta ter esperança numa, melhoria, futura

Que desejamos seja segura

Se não morremos do mal, morremos da cura

Há demasiado tempo que esta luta perdura

Nem todos estão preparados para esta moldura

Nem todas as habitações têm condições para tanta desenvoltura

Escolheram esta altura

Para nos mandarem para a cura.

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

12
Jan21

A dupla

cheia

Frio

 

Frio rijo e duro a anunciar o futuro

Associaste-te ao vírus para nos roubarem o presente

Mas, nós vamos aguentar o teu enregelar

Fazendo com que fiquemos mais fortes

Para vencermos tudo o que nos queiras enviar

Não nos vamos, ao frio, vergar

Vamos tudo fazer para que a vossa coligação vos possa matar

Com as vacinas, o vírus, vamos enfrentar

Com a força da nossa determinação congelaremos o frio

Dos lençóis brancos, de cada manhã, faremos um rio

2021, nasceste em confinamento, rude, em desalento!

Frio, mortífero, sem mostrares bondade em nenhum momento

Estás determinado a fechar-nos em casa, como frades em convento

Não vamos perder o alento

Quanto voltarmos a ter liberdade, vamos mostrar como virar o vento

Criar um novo pensamento

Aproveitando todo o nosso conhecimento

Para vencer todos os vírus, frio, miséria, fome e sofrimento.

 

José Silva Costa

  

 

 

 

 

 

04
Jan21

Laxismo!

cheia

Apanhar

 

“Apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo”

 

Um erro de engano, um lapso, uma mentirinha, uma imprecisão, um desleixo, que mal tem isso?

Num País de Doutores e Engenheiros, quem é que quer ser tratado como o pé rapado: pelo nome!

Por isso, os que se julgam acima do comum cidadão, continuaram na vida civil com o posto que tinham tido na tropa. Não é bem o que tiveram, é o que teriam a seguir, mais uma imprecisão que não tem mal nenhum!

O Major fulano, o Comandante beltrão …………………..

Se todos os que tivemos na tropa, obrigados ou não, antecedesse-mos ao nosso nome o posto da tropa, este país ficava muito mais colorido: A Major Maria, a Soldado Francisca, o Sargento José, ……………….

Acontece que lá fora, na UE , onde, felizmente, estamos integrados, contra os que preferiam que não tivéssemos perdido a soberania, não aplaudem esta nossa vaidade das imprecisões

No concurso para Procurador Europeu, a candidata escolhida pelo júri internacional não agradou ao nosso Governo. Assim, pediram para que fosse o segundo classificado o nomeado

Ao pedido de alteração, pediram para justificarem a escolha. Como o real motivo não podia ser divulgado, arranjaram umas imprecisões

Três imprecisões, uma delas determinante para que aceitassem a alteração!

Despois enviaram uma carta, um documento de trabalho, chamem-lhe o que quiserem, para o nosso embaixador, junto da UE, entregar aos Senhores que escolheram a candidata preterida

Como esse documento de trabalho, essa carta, chamem-lhe o que quiserem, é confidencial para quem o recebe, mais ninguém vai saber que houve laxismo. Pronto, já está, uma mentirinha, que mal tem!

 

José Silva Costa

 

  

  

 

 

 

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