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15
Set17

Os últimos dias

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Os últimos dias

Setembro, dia de semana, visitámos um amigo de noventa anos, que está num lar para idosos

Foi imigrante em França, onde vivem a filha, o genro, os dois netos e a bisneta, todos franceses

Há menos de um ano, aos netos apertaram-lhes as saudades, meteram-se num avião e vieram ver o avô, apenas algumas horas, enquanto o avião descansou

Que maravilha de tecnologia, que em poucas horas, liga Paris a Lisboa, e vice-versa!

Batemos à porta, que está sempre fechada, com a chave retirada, não vá alguém abri-la, sair e perder-se, para o resto da vida

Entrámos logo, num dos dois salões, que estão ligados por um amplo vão

As paredes estão forradas de cadeiras apertadas, todas ocupadas com corpos cansados, à espera de uma visita, de um carinho de um familiar, de uma palavra, que quebre a monotonia

Ali estão todo o dia em exposição, em frente a duas televisões, que espantam a solidão de tanta pessoa junta, em tão pouco espaço

Eram dezasseis horas, estavam a servir uma refeição, não sei se era o lanche, o jantar ou a ceia

Quem lá trabalha tem filhos, para ir buscar à creche e à escola

Duas empregadas e um rapaz fardado de enfermeiro serviam as refeições:

Um carrinho carregado de tigelas de sopas de pão com café e leite

Havia três categorias de comensais: os que conseguiam comer pela própria mão, os que lhe tinham de dar o comer na boca e aqueles a quem o enfermeiro tinha de lhes injetar a comida, com uma seringa gigante

Primeiro injetava a refeição, depois a água, porque as suas bocas já não conseguem, a comida, saborear

Fiquei a imaginar, como e onde passarão as longas noites, sem sono, porque quando o tinham, não tiveram tempo, para o aproveitar

A não ser que sejam sedados, para a paz, reinar

Todos com muita idade, à exceção de um homem sem pernas, cortadas pelos joelhos, que dialogava, com uma das empregadas, contando anedotas e dizendo piadas, animando a sala, para que não parecesse um velório

Poucas visitas, num dia de trabalho, apenas três famílias

Fechados noite e dia, naquela prisão, mas as famílias não têm outra opção, mais tarde ou mais cedo chegará a minha vez.

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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