Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Joana

Introdução: As crianças são graciosas flores em crescimento

                    Devemo-lhes  a ocupação do nosso pensamento.

 

12/09/2004

 

 

JOANA

 

 

 

Joana, rosa enjeitada

De  lado para lado empurrada

Nem pela mãe, nem pelo pai, amada

No seu triste sorriso sufocada.

Flor de alma magoada

Corpo franzino desprezado

Num vai e vem esforçado.

 O quente verão incendiou-se

O sol nunca mais brilhou

A verde dúvida mói mais,

Que a negra morte.

Foram tão duros os dias

Que te traçou a sorte.

Joana, escura foi a noite

Em que teus tristes olhos

Vibraram sem crer

No incesto que estavam a ver.

A lua imolou-se no éter

Por  antever o que te ia acontecer

Tudo começou a esmorecer

Com o bárbaro anoitecer.

Só as tuas bonecas te choraram

Desfizeram-se em lágrimas

A tua morte as matou

Ninguém mais as embalou.

 

 

 

 

 

 

Ps. À menina que, do Algarve, desapareceu.

 

 

José Silva Costa

 

 

publicado por cheia às 22:10
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Domingo, 24 de Junho de 2007

Mãe

Três letras doces

Tão doces, tão doces como o amor

Mas, como a minha mãe não há outra igual

Porque é a minha mãe

A quem recorro todos os dias

Nas horas de alegria e de horror.

A minha mãe criou os filhos na dor,

Com o brilho dos olhos, e as mãos cheias de amor.

Sustentou-os com as lágrimas do coração

Na falta de pão beijava-os até adormecerem.

No Inverno, nas noites escuras de frio, fiava o linho

Com os mesmos  rubros lábios, com que nutria os filhos,

Humedecia o áspero linho, quando este passava da roca

Para o fuso, transformado em fio.

Na Primavera lançava o sacho à terra,

Era tempo de mondar o trigo, arrancando erva.

O calor do Verão amadurecia o pão,

Colhê-lo exigia esforço até à exaustão:

Durante o dia,  a calma, os corpos cozia

Há noite, ao luar, ceifava até o corpo aguentar

Quando as pernas já  lhe não obedeciam

Sentava-se num molho de trigo

E dava de mamar ao filho ou à filha.

Aí, minha mãe, quanto sofreste

Para que eu não perecesse, e crescesse?

Aí, minha mãe, por mais que viva não esquecerei

O teu perfume, o baloiçar do teu colo, o gosto do teu leite.

Mãe, nas tuas muitas e dolorosas Primaveras

Quanto desejava que fosses eterna

Para poder, sempre, contar com a tua compreensão

Nas minhas dolorosas horas de aflição.

 

 

José Silva Costa  

 

 

publicado por cheia às 22:27
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Sábado, 16 de Junho de 2007

...

Fogem à  fome

Deixam a família

Andam anos a pé

Morrem de fadiga

Sem nada na barriga

 

Chegar a Mellila ou Céuta

Às portas do paraíso!

Um paraíso muito guardado

Por arame farpado

 

África, fome, corrupção

Fome, corrupção, imigração

A corrupção aperta o coração

África, mãe, madrasta

A fome, multidões arrasta

A esperança basta

Para percorrer o Continente, a pé

 

Arriscam a vida

Porque, na verdade, já a perderam

Se conseguirem atravessar o mar

Beber a água da Europa

Se não forem recambiados

Ressuscitam

 

Tantas desigualdades!

Uns com tudo

Outros sem nada

Antes escravizados

Agora esfomeados

Morrem aos punhados

À vista dos nossos telhados

Mal tratados

Pela nossa indiferença

De obesos  atulhados

Nas bandas gástricas

Da abundância.

 

G 7 mais um

Conferência UE  África

São só promessas

De milhões de nada

De consciências comprometidas

A esconderem-se das vidas

Que sangram nas avenidas

Enquanto os donos do Mundo

Se empanturram de comidas.

 

publicado por cheia às 22:51
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Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

A negra morte

Sexta-feira negra, na escola de Beslan, na república da Ossétia do Norte, no sul da Rússia, onde um comando terrorista tchetcheno mantinha centenas de reféns desde o dia  01/09/2004.

O Sol raiou

O dia amanheceu

A alegria floriu

As crianças sorriam

Festejavam o início das aulas

Com a participação de:

Avós, pais, irmãos e professores

Era a recepção às frágeis flores.

De repente escureceu

A euforia morreu

As flores murcharam

Os sicários sequestraram a alegria

Porque ela os ofendia

Como sanguinários matadores

Cobardes atiradores

E até as mulheres

Que os acompanhavam

Não tinham espirito maternal

Fizeram àqueles inocentes

Todo o mal

Mataram tenras esperanças

De alegres crianças

Fuzilaram também

Mães, filhos, avós e netos

Deitaram abaixo os tectos

Três dias de inferno.

Mortos de fome e sede

Sujeitaram-se a urina beber

Era muito cedo para morrer.

Nas horas aflitas

Todas as palavras lhes foram ditas

Nenhuma lhes amoleceu o  que não tinham : coração

Eram feitos de ódio.

                
publicado por cheia às 22:30
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Terça-feira, 12 de Junho de 2007

A vida

A vida é uma flor

Que desabrocha lentamente

É como um rio

Começa na nascente

Dentro de um ventre

Da fusão da semente

O vento leva-lhe as pétalas

E o tempo o perfume.

 

A vida é uma flor muito bem urdida

Vai-se tecendo, momento a momento,

 com a ajuda do tempo

Perfuma  tudo o que a rodeia

Quando chega ao fim a teia,

 voa numa manta de vento.

publicado por cheia às 22:56
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Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

A flor

Quando nasce uma criança:

É o Natal a chorar

É o presépio a cantar

É uma Estrela no altar

É o Mundo que avança

É a Natureza que dança

É a esperança que nasce

É o amor que renasce

É o amanhecer de um sorriso

É o florir de um grito

É uma flor sem idade

É um presente à humanidade

É o futuro, é a alegria

É um raio de luz

É a maior magia.

publicado por cheia às 22:26
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Domingo, 10 de Junho de 2007

A Dor

O cais pintado de negro

O rio alteroso

As ruas desertas

A manhã chorosa.

 

A guerra no horizonte

O barco atracado à ponte

O vento a assobiar no monte

O sol escondido de vergonha.

 

As mães desesperadas

Os filhos criados

A guerra a roubar-lhos

Os soldados conscientes.

 

As namoradas inconformadas

Com o cheiro a morte no ar

A putrefacção dos corpos viçosos

A substituir o perfume dos vinte anos.

 

O monstro de bojo cheio

A afastar-se do cais

Os olhos rasos de sais

Todo o porto aos ais.

 

Os órfãos a gemerem

Por lhes matarem os pais

O país doente

O futuro sem semente.

 

A multidão atracada à dor

De olhos cerrados

A sonhar com o regresso

De braços estendidos

A desviarem o ar

Que lhes massacra os sentidos.

publicado por cheia às 22:40
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2007

A despedida

Fico, no cais, atracada à minha dor

De olhos fechados pelo amor

De braços presos no horror

De te perder na guerra.

Morro aqui à tua espera

Com os teus últimos beijos

Presos nos sentidos.

Abro os olhos

E, à memória, só me vêm maus pensamentos

O coração não aguenta 

Tão grande separação.

Beijo os  cabelos

Perfumados pelos teus dedos

Sinto-os entrelaçados nas recordações

Que embalaram o meu corpo

Agora, condenado a definhar

Com a tua ausência.

Sem o teu carinho e amor

Meus olhos fecho, para sempre,

Meu amor.

 

 

 

publicado por cheia às 22:14
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Domingo, 3 de Junho de 2007

A A2

A Rodízio 12/12/2001

auto-estrada para o Algarve

 

Aos três brasileiros, dois guineenses e um ucraniano, que faleceram na construção de um viaduto, no concelho de Almodôvar 

 

Já Dezembro era entrado

Mais um ano quase acabado

Vindos de tão longe, desafiar o fado

Na auto-estrada, seu fim foi chegado.

 

Madrugada negra, no viaduto começado

Quatro da manhã, ferro e cimento

No escuro, surgiu o desabamento

Seis vidas ceifadas, num momento.

 

Trabalhar, de noite ou  de dia

Ao vento ou à chuva fria

À procura de uma melhoria

Numa vida cheia de monotonia.

 

Viestes do Brasil, da Ucrânia e da Guiné

Com muitos  projectos e  muita fé

Procurar, em Portugal, melhor sorte

Mas aqui, encontrastes a morte.

 

A trinta e cinco metros de altura

Numa vida, muito, muito dura

Encontraram a sua sepultura

Numa noite muito fria e escura.

 

A construção da auto- estrada tem de seguir em frente

Ainda que esta venha a ser o cemitério de muita gente

Que aguarda a sua conclusão impacientemente

. Porque anseia chegar, depressa, ao Algarve, quente

 

publicado por cheia às 22:48
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...

Rodízio, 08/04/2003

 

A Guerra em Directo

 

A Primavera não trouxe flores

A guerra só traz horrores

As crianças gemem de dores

As guerras são tumores.

 

As bombas nos televisores,

As crianças jazem, sem dores.

Os hospitais não têm dadores,

Os aviões são vampiros voadores.

 

A câmara de filmar ensanguentada,

O operador jaze morto, na estrada.

A memória para sempre arrepiada

Pela imagem, na televisão, passada.

 

A mãe beija a filha, que está magoada

A criança abre os olhos, de assustada

É a morte, pelo avião, anunciada,

Foi o míssil, disparado, na madrugada.

 

O sangue corre pela estrada

Na guerra a vida não vale nada

Só, a morte merece ser louvada

A guerra é, sempre, uma via desastrada. 

 

publicado por cheia às 22:30
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