Quinta-feira, 13 de Outubro de 2016

Lisboa

Lisboa, quanto mais velha, mais rapariga

Nos meados do século passado

Atrasada, sem brilho, nem fachada

Fechada no orgulhosamente só

Eras uma capital sem atração fatal

Nada de genial: carroças, olarias, tabernas e pregões:

Quem tem trapos, garrafas ou jornais para vender

Quem quer figos, quem quer almoçar

Água fresca, água de Caneças

Oh freguesa venha cá abaixo ver isto

É sardinha vivinha da costa

Século, Diário da Manhã, República, Diário de Lisboa e Notícias

Por causa do pregão dos jornais, conta-se a seguinte anedota

Um compadre alentejano, depois de vender a cortiça, resolveu ir a Lisboa, depositar o dinheiro

Apanhou o comboio, quando se apeou no Barreiro, mal saiu, logo ouviu: cerquem o da cortiça

Pensando que o queriam roubar, voltou para o comboio, quando chegou a casa, contou o que lhe tinha acontecido.

As lavadeiras de Caneças

“Um lençol, um corpete, uma camisa, que a freguesa deu ao rol”

Com o aparecimento da máquina de lavar roupa, lá se foi a profissão

As lavadeiras ficaram sem o ganha-pão

As senhoras da fidalguia não trabalhavam, salvo raras exceções

Tinham criadas: uma, duas ou mais

Que viviam nas casas dos patrões

De quinze em quinze dias, ao domingo à tarde, tinham umas horas de folga, para poderem namorar

Como ninguém imaginava como seriam os futuros supermercados

Tudo lhes era levado a casa, pelos marçanos, carvoeiros, leiteiros, padeiros, ardinas, lavadeiras

Que rica vida, comparada com a de hoje!

Surgiu a televisão, a esferográfica, o metropolitano, o self servisse e muitas outras novidades

A esferográfica e a sua utilização: um advogado entrou num estabelecimento e gritou, “ com esta esferográfica já se podem assinar cheques e escrituras, foi publicado, hoje, no diário do governo. A caneta de tinta permanente, morreu”

Lisboa cresceu

A guerra levou todos os jovens ao ultramar

Os que voltaram não quiseram às suas terras voltar

Carris, PSP, GNR, comércio e indústria, nada de agricultura

Com as fronteiras fechadas, foram a salto para França, Suíça, Alemanha

Com as sus poupanças engordaram a Banca

Não faltavam anúncios, nas montras dos Bancos, anunciando a galinha dos ovos de oiro: as ações

Naqueles tempos, já o suplemento o Diário de Lisboa: a Mosca, lhes chamava, por palavras codificadas, os donos disto tudo

Porque neste jardim à beira mar plantado, tudo tinha de ser codificado, para que, pela PIDE, não fosse apanhado   (PIDE: polícia Internacional de defesa do Estado)

“ Da liberdade, só nos tinha ficado, a da avenida” ( Avenida da Liberdade)

Liberdade, liberdade, quanto sangue e lágrimas nos, fizeste, derramar!

 

 

 

José Silva Costa

 

 

 

      

 

 

 

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publicado por cheia às 11:23
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11 comentários:
De Chic'Ana a 13 de Outubro de 2016 às 11:42
Muito bom! =)
Beijinhos


De cheia a 13 de Outubro de 2016 às 14:48
Muito obrigado, pelas amáveis palavras de incentivo.


De HD a 13 de Outubro de 2016 às 21:24
Nice, adorei a alusão à PIDE :)


De cheia a 14 de Outubro de 2016 às 10:37
A mão direita do botas, moeu-nos os neurónios.


De HD a 14 de Outubro de 2016 às 23:50
Tens de me explicar, agora perdi-me :(


De Anónimo a 15 de Outubro de 2016 às 20:10
Se não sabes quem foi o botas. Esquece, melhor para ti. O homem tinha aquela mãozinha, bem armada, para o ajudar a "assinar" todos os que se lhe opunham.


De HD a 15 de Outubro de 2016 às 20:13
Já deste uma ajuda :)
Qual ditador? ;)


De cheia a 15 de Outubro de 2016 às 20:24
O Salazar, quem mais prejudicou o país. A única coisa que ele queria era acumular barras de ouro, para encher todo o edifício do Banco de Portugal.


De HD a 15 de Outubro de 2016 às 20:26
Ainda bem que me ajudaste.
Acho que não chegava lá sozinho :)


De cheia a 15 de Outubro de 2016 às 20:33
Vamos aprendendo uns com os outros. Só todos é que sabem tudo.


De HD a 15 de Outubro de 2016 às 20:43
Concordo plenamente :)


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