Domingo, 30 de Setembro de 2007

A Auto-estrada

Rodízio 12/12/2001

 

A auto-estrada para o Algarve

 

Aos três brasileiros, dois guineeneses e um ucraniano, que faleceram na construção de um viaduto, no concelho de Almodôvar 

 

Já Dezembro era entrado

Mais um ano quase acabado

Vindos de tão longe, desafiar o fado

Na auto-estrada, seu fim foi chegado.

 

Madrugada negra, no viaduto começado

Quatro da manhã, ferro e cimento

No escuro, surgiu o desabamento

Seis vidas ceifadas, num momento.

 

Trabalhar, de noite ou  de dia

Ao vento ou à chuva fria

À procura de uma melhoria

Numa vida cheia de monotonia.

 

Viestes do Brasil, da Ucrânia e da Guiné

Com muitos  projectos e  muita fé

Procurar, em Portugal, melhor sorte

Mas aqui, encontrastes a morte.

 

A trinta e cinco metros de altura

Numa vida, muito, muito dura

Encontraram a sua sepultura

Numa noite muito fria e escura.

 

A construção da auto-estrada tem de seguir em frente

Ainda que esta venha a ser o cemitério de muita gente

Que aguarda a sua conclusão, impacientemente

Porque anseia chegar, depressa, ao Algarve, quente.

 

                                               José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por cheia às 20:46
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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Joana

Introdução: As crianças são graciosas flores em crescimento

                    Devemo-lhes  a ocupação do nosso pensamento.

 

12/09/2004

 

 

JOANA

 

 

 

Joana, rosa enjeitada

De um  lado para outro empurrada

Nem pela mãe, nem pelo pai, amada

No seu triste sorriso sufocada.

Flor de alma magoada

Corpo franzino desprezado

Num vai e vem esforçado.

 O quente verão incendiou-se

O sol nunca mais brilhou

A verde dúvida mói mais,

Que a negra morte.

Foram tão duros os dias

Que te traçou a sorte.

Joana, escura foi a noite

Em que teus tristes olhos

Vibraram sem crer

No incesto que estavam a ver.

A lua imolou-se no éter

Por  antever o que te ia acontecer

Tudo começou a esmorecer

Com o bárbaro anoitecer.

Só as tuas bonecas te choraram

Desfizeram-se em lágrimas

A tua morte as matou

Ninguém mais as embalou.

 

 

 

 

 

 

Ps. À menina que, do Algarve, desapareceu.

 

 

José Silva Costa

 

 

publicado por cheia às 22:35
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